“África Ilustrada”: a imagem e o domínio português do continente africano por Henrique Dias.
- Relicário da História

- Nov 10, 2021
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Contextualização
Em fins do século XIX, momento de produção do periódico português África Ilustrada, o continente africano vinha sofrendo com invasões e ocupações por parte de países europeus, no que ficou conhecido como Imperialismo ou Neocolonialismo, momento em que as principais potências europeias vinham buscando expandir seus domínios, ultrapassando as fronteiras de seu continente. É possível definir, ainda, que esse processo, iniciado no ano de 1884 como resultado do colonialismo e dos desafios enfrentados pelos Estados em função de seus desenvolvimentos econômico e industrial neste mesmo século,
iniciou a sua política de expansão por amor à expansão, e esse novo tipo de política expansionista diferia tanto das conquistas de característica nacional, antes levadas adiante por meio de guerras fronteiriças, quanto diferia a política imperialista da verdadeira formação de impérios, ao estilo de Roma (ARENDT, 2013, p. 147).
Diversas teorias tentaram encontrar explicações para o processo imperialista, teorias tais que abarcaram pressupostos econômicos, políticos e psicológicos. Destaca-se, entre as explicações de perspectiva econômica, aquela então apoiada pelos adeptos ao marxismo, centrada na perspectiva de que as guerras ocorridas na África, consequência do neocolonialismo, eram inevitáveis, uma vez que tais conflitos seriam os causadores do fim do capitalismo (UZOIGWE, 2010).
Com relação às teorias psicológicas – ou seja, aquelas que disseminavam uma ideia de superioridade racial branca –, enfatizamos, primeiramente, o darwinismo social, cujos adeptos se respaldavam nos escritos de Charles Darwin acerca da evolução das espécies para tentar explicar a ideia de uma hierarquia baseada em características étnicas. O imperialismo africano, nessa perspectiva, serviria para evidenciar o processo de seleção natural das “raças” consideradas superiores. Em segundo lugar, vale constar a explicação que partia do cristianismo evangélico, apoiado no pensamento de que “[...] a partilha da África se devia, em parte não desprezível, a um impulso “missionário”, em sentido lato, e humanitário, com o objetivo de ‘regenerar’ os povos africanos” (UZOIGWE, 2010) e, finalmente, a teoria do atavismo social, que entende o processo e neocolonialismo empreendido pelos europeus na África como prazer desses primeiros em subjugar as demais populações (UZOIGWE, 2010).
Finalmente, podemos evidenciar, ainda, as teorias diplomáticas. Estas são apontadas como as de melhor receptividade entre as explicação para o processo imperialista, calcando-se, principalmente, nos fatores políticos que resultaram nesse movimento – ao mesmo tempo em que dão escopo para as supracitadas teorias psicológicas (UZOIGWE, 2010) –, fatores estes que poderiam consistir na tentativa de obtenção de maior notoriedade pelos países conquistadores ao dominarem novos territórios, na busca dessas nações europeias por estabilidade ou na formulação de uma estratégia global para solapar a emergência, na África, de possíveis movimentos capazes de prejudicar interesses europeus (UZOIGWE, 2010).
Nesse cenário de fracionamento territorial da África por países da Europa, os portugueses, que ainda detinha possessões no continente africano, empenharam-se na criação de uma imprensa que difundisse pela metrópole sua visão das características dos territórios sob seu domínio e as populações que os habitavam. Essa modalidade de imprensa, que contava com ilustrações, contribuía para que fosse disseminada uma nova “[...] forma de perceber o outro e de conhecer novas realidades” (SANTIAGO, 2021), ainda que essas caracterizações iconográficas nem sempre reproduzissem de modo fidedigno os elementos a que se propunham, a divisão da África pelo processo imperialista sendo representada nos jornais portugueses como um “jogo de sedução” (CORREA, 2016).
A relevância da imprensa portuguesa em meio aos eventos que se desenrolavam ficara mais clara a partir dos conflitos instalados entre o país luso e a Grã-Bretanha em decorrência da Conferência de Berlim (1884-1885), que efetivou a distribuição de territórios africanos entre os países europeus, impondo condições para a permanência destes últimos nos locais conquistados e determinações a serem seguidas após o momento de conquista, contribuindo, nesse sentido, para a legitimação do domínio da Europa sobre a África (UZOIGWE, 2010). Vale ressaltar que, nesse momento, os profissionais que atuavam na composição dos periódicos – isto é, jornalistas e caricaturistas – haviam se apropriado dos discursos nacionalistas e imperialistas da época e, por isso, suas produções voltavam-se para a defesa dos interesses portugueses no continente africano (CORREA, 2016).
Marcado pelo hibridismo em seus conteúdos, abarcando tanto eventos atuais como informações culturais enciclopédicas (SANTIAGO, 2021), o periódico África Ilustrada consiste em uma fonte privilegiada para a compreensão de como o continente africano era visto pela perspectiva portuguesa. Além disso, também contribui para o entendimento do modo como as informações acerca dos eventos em desenvolvimento nas possessões lusas da África circulavam em meio às populações europeias.
Análise da Fonte
“Esta publicação dividida em números semanaes, ilustrados com gravuras, é um arquivo ou < repositorium, > de conhecimentos úteis sobre todo o continente africano e que devem ser do domínio dos indivíduos de ambos os sexos de todas as classes da sociedade [...]” (Carta introdutória, 1892, p. 8)
O trecho extraído acima pertence a um dos periódicos do final do século XIX, que exporia em suas páginas todo o contexto do colonialismo português no continente africano no mesmo período: o periódico “África Ilustrada”. Publicado entre os anos de 1892 e 1893, o jornal lusitano foi editado pelo então militar português Henrique Dias de Carvalho que não só teria criado o “África Ilustrada” como também outro noticiário tal qual o “Colónias Portuguesas” entre os anos de 1883 e 1891.
Dividido em volumes nos quais seriam compostos por cinquenta e dois números, contendo cada um oito páginas por publicação, o periódico “África Ilustrada” teria por principal objetivo em sua divulgação mobilizar a opinião pública portuguesa sobre a importância da permanência da presença lusitana dentro do continente africano. Tendo em vista as negociações que se fariam no final do século XIX entre os países europeus sobre a Partilha da África, Portugal receberia uma advertência por parte dos britânicos para que desocupassem os territórios que se estendiam na faixa de Angola e Moçambique (SANTIAGO, 2021, p. 98). Tal evento histórico, posteriormente conhecido como o “Ultimato de 1890”, abriu espaço então para que a imprensa da época colocasse em discussão a relevância de se preservar os chamados “direitos históricos” dos portugueses sobre suas possessões ultramarinas africanas.
Escolher a imprensa como o campo para se fazer tal debate seria uma estratégia então adotada por alguns grupos da sociedade, tais quais os intelectuais e outros agentes políticos do país, por conta de ser o meio jornalístico um dos mais eficientes em se fazer circular e incitar a discussão sobre a disputa territorial dos países europeus pela África. (SANTIAGO, 2021, p.98). Além da eficiência na divulgação dessas temáticas, a imprensa europeia do século XIX contaria com novas tecnologias gráficas como a fotografia. A captura de imagens e suas revelações nos jornais portugueses, principalmente no “África Ilustrada”, que receberia tal nome pela sua riqueza em fotografias e gravuras advindas da expedição feita por seu editor ao império da Luanda em 1884 e 1888, traria ao público lusitano a realidade vivida pelos povos africanos em seus territórios, bem como seus costumes, sua aparência, entre outras características. (INES, 2016, p.416). Ademias, a recorrência no uso das imagens nos periódicos portugueses no novecentos teria um papel decisivo na construção de uma proximidade entre o sentimento patriota luso e sua política colonialista (CORREA, 2016, p.199). Como explicitaria Henrique Dias de Carvalho no sétimo fascículo da edição:
"Nós felizmente podemos asseverar que possuimos regiões em Angola que devidamente preparadas pelos trabalhadores africanos sob direcção europeia, nessas se podem estabelecer com vantagens as familias dos nossos pequenos lavradores metropolitanos, aquellas que directamente trabalham na terra e d’ellas necessariamente provirão os futuros povoadores da raça branca nas terras de Angola" (Fascículo 7, 1892, p. 64).
Ficava explícito então pelo discurso associado a ilustração e a fotografia no periódico “África Ilustrada”, a importância de se resgatar o “espírito do explorador e do colonizador” novamente no povo português para que esse reivindicasse seu direito histórico e sua presença sobre o continente africano. Ao atrair o público com descrições precisas sobre as sociedades, as riquezas e a natureza das possessões ultramarinas na África, o periódico incitaria o interesse dos povos lusitanos em explorar e ocupar tais territórios.
Em suma o periódico “África Ilustrada” editado por Henrique Dias de Carvalho cumpriria um papel fundamental tanto no meio jornalístico quanto no meio político e histórico de sua época ao trazer para o público as discussões que envolviam o passado colonial português com suas possessões ultramarinas em plena época contemporânea. Ademais, além de ser um jornal que teve ampla circularidade na América, em outros lugares da Europa e na própria África, o periódico é um dos melhores exemplos da imprensa ilustrada no século XIX, que buscaria captar e informar seu público ao inseri-los sobre contexto em que viviam e os associariam aos conhecimentos enciclopédicos sobre outros povos espalhados pelos continentes.

Retrato de Henrique Dias de Carvalho- Créditos da Imagem: Wikipédia

Periódico África Ilustrada, volume 1- Créditos da Imagem- Biblioteca Nacional de Portugal

Fascículo 34, África Ilustrada- Créditos da Imagem- Biblioteca Nacional de Portugal
Fonte
CARVALHO, H. (1892-1893). Africa Illustrada: archivo de conhecimentos uteis. V. 1, fasc. 1 (14 Ago. 1892) — fasc. 47 (1893). http://id.bnportugal.gov.pt/bib/catbnp/94979 Freudenthal, A. (2001). Voz de Angola em tempo de ultimato. In Estud. afro-asiát., Rio de Janeiro, v. 23, n. 1, pp. 135- 169. www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-546X2001000100006&lng=en&nrm=isso
Bibliografia
ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
CORREA, Sílvio Marcus de Souza. Caricaturas da África: a Partilha da África pela imprensa ilustrada de Lisboa. Outros Tempos, vol. 13, n. 22, 2016 po. 192 - 207.
Martins, L. P. (2021). Um império de Papel. Imagens do Colonialismo Português na Imprensa Periódica Ilustrada (1875-19400. Lisboa: Edições 70. GOMES, Inês Vieira. Comunicação e Sociedade, Lisboa, vol. 29, p. 415-419, 2016.
SANTIAGO, Bruna Oliveira. Imprensa ilustrada em Portugal no pós-Ultimato: um estudo de caso do periódico Africa Illustrada (1892-1893). Livros ICNOVA, [S. l.], 2021. Disponível em: https://colecaoicnova.fcsh.unl.pt/index.php/icnova/article/view/8. Acesso em: 10 nov. 2021.
UZOIGWE, Godfrey N. Partilha europeia e conquista da África: apanhado geral. In: BOAHEN, Albert Adu. História Geral da África VII. África sob dominação colonial, 1880-1935. Brasília: UNESCO, 2010.




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