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O Governo da Libéria e as Cartas do Presidente William Tubman

  • Writer: Relicário da História
    Relicário da História
  • Nov 24, 2021
  • 10 min read

Contextualização Após a vitória dos Estados Unidos sobre os ingleses na Guerra de Independência em 1781, a integração social dos então ex-escravos que haviam adquirido a sua liberdade por lutarem ao lado das tropas norte-americanas durante o conflito torna-se um problema, o qual ganha maior destaque a partir de 1815, com a abolição do tráfico de escravos. Sem conseguirem se inserir no mercado de trabalho e, em sua maioria, apresentando uma baixa ou nula escolarização, a esses negros libertos passa a ser atribuída uma imagem pejorativa de perigo e ameaça social, considerados mais sujeitos ao banditismo e uma má influência para aqueles que ainda estavam sob cativeiro, imaginário este alimentado, sobretudo, pelos latifundiários donos de terras ao Sul dos EUA, região que manteve o sistema escravocrata até a sua proibição oficial em 1865 (SANTOS, 2007). Nesse contexto, o Pan-Africanismo constituiria um pensamento que se desenvolve como parte da própria história do abolicionismo norte-americano, projetando sobre a África a imagem de um lugar onde seria possível fugir da realidade de opressão e de violência vivenciada cotidianamente pelos negros espalhados pelo mundo, os quais poderiam compartilhar um sentido, um pertencimento, um passado e um destino comuns vinculados a uma mesma comunidade imaginada, o que se fundamentaria em uma visão de solidariedade relacionada principalmente ao ideal de “raça”. Nesse cenário é criada, em 1816, a American Colonization Society (ACS), pelo veterano de guerra Robert Finley, através da reunião entre defensores da causa abolicionista e representantes de famílias ricas e poderosas do Norte do país. A atuação da sociedade se voltava para a angariação de fundos para financiar o encaminhamento dos escravos libertos descendentes de africanos para o seu continente “de origem”. Desse modo, inspirando-se em experiências britânicas anteriores, a ACS visava fundar um país livre na África, que seguisse os ideais de liberdade e igualdade norte-americanos (SANTOS, 2007). Também apoiadas por alguns grandes latifundiários sulistas e proprietários de escravos que estimulavam o processo de extradição dessa população negra para a África, travestido de preocupação humanitária, as ações da ACS muitas vezes eram justificadas pelo pensamento racialista que atribuía inferioridades aos negros, considerados indignos de comporem a sociedade norte-americana (SANTOS, 2007). Os afro-americanos enviados para o país africano em formação o eram ou por convencimento ou através de ameaças, tendo sido fundada, em 1822, a república da Libéria, “terra da liberdade”, como colônia da ACS, região que apresentaria um próspero desenvolvimento econômico, a partir de um mercado interno e da exportação de produtos como o açúcar e o café. Esses grupos de ex-escravos afro-americanos recém-chegados na região comporiam uma elite comercial e política denominada américo-liberiana, minoria que passa a protagonizar conflitos territoriais, econômicos e socioculturais com as populações autóctones do território, consideradas pelos primeiros como menos civilizadas e, por isso, seria necessário convertê-las e educá-las de acordo com os moldes norte-americanos (SANTOS, 2007). Apesar de ter conquistado a sua independência formal em 1847, trinta e sete anos antes da Conferência de Berlim (1884), constituindo, desse modo, juntamente com a Etiópia, as únicas extensões territoriais africanas reconhecidas internacionalmente como países, a Libéria veria emergir e se fortalecer rapidamente uma elite oligárquica governante formada pelos américo-liberianos, os quais, apesar de corresponderem a uma pequena parcela da população, estabeleceriam práticas de dominação, de segregação, de alienação, de exploração, de opressão e de vassalagem com os demais grupos étnicos que se aproximariam bastante dos empreendimentos de sujeição colonial realizados por países europeus em outras regiões da África (SANTOS, 2007). A centralização do poder nas mãos desses grupos, somada a uma participação política restrita àqueles ligados a essa ínfima parcela da sociedade liberiana, alimentariam um sentimento de desajuste e de ressentimento contra a elite governante, a qual, bem longe de atender aos objetivos iniciais da ACS em garantir a representação e o bem-estar dos liberianos, transformou-se em um mecanismo de perpetuação do poder e de manutenção de privilégios (SANTOS, 2007). Em meio a essa conjuntura complexa na qual o Executivo era incapaz de se legitimar em todas as unidades do território da Libéria e as diferenças entre américo-liberianos e nativos e entre as regiões centrais e periféricas do país tornavam-se cada vez mais presentes, destaca-se a formação de dois partidos políticos no país o Partido Republicano e o True Wigs (SPOHR; ANDRIOTTI; CERIOLI, 2013). Enquanto o primeiro era comandado pelos colonos de pele mais clara, o segundo apresentava uma liderança formada por colonos negros, de pele mais escura, em sua maioria congoleses e autóctones mais instruídos, o qual permaneceria no comando do governo liberiano entre 1877 e 1980 (FRAQUETTO, 2018). Após o conflito da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), para além das tensões internas, a situação econômica do país era marcada por uma dependência cada vez maior em relação aos EUA, sobretudo a partir da atuação da Firestone no território, empresa norte-americana de exploração de borracha. Todavia, mudanças significativas ocorreriam com a eleição de William Vacanarat Shadrach Tubman, em 1944, penúltimo presidente do partido True Wigs, mantendo-se no poder através das reeleições até 1971, ano de sua morte (SPOHR; ANDRIOTTI; CERIOLI, 2013). Tubman foi o responsável por empreender uma abertura econômica do país para investimentos estrangeiros, visando diminuir a dependência liberiana em relação aos EUA e fortalecer a economia através da diversificação e da realocação do capital estrangeiro. Apesar de descendente de américo-liberianos, o presidente eleito não fazia parte da elite política, tendo, na verdade, desenvolvido reformas que desmantelaram a estrutura de liderança nacional, como a substituição de líderes conhecidos por pessoas de outros status sociais (ALMEIDA, 2017). A promoção da unificação nacional constituía um de seus principais objetivos, tendo apoiado e promovido a participação política dos nativos no governo, estendendo a essa população o direito de representatividade nas eleições legislativas e encorajado o orgulho “autóctone” na cultura, nas artes e nas línguas (NOGUEIRA, 2003). Em 1944, o direito ao voto foi estendido a todo homem liberiano que pagasse os seus impostos em dia, o que foi acompanhado de melhorias em relação à infraestrutura, à comunicação e à abertura para o interior do país através do desenvolvimento de um sistema viário e da construção de um porto em Monróvia, capital da Libéria, o qual também possibilitaria resultados positivos para o país em termos econômicos (SPENCER, 2014). Reeleito seis vezes seguidas, Tubman e suas reformas socioeconômicas ganharam popularidade e permitiram o alargamento dos direitos às outras etnias do território, sendo elas dezesseis no total. Entretanto, sua legitimidade política perpassava as relações de patronagem que estabelecia com os chefes distritais e com os líderes dos clãs, reconhecendo formalmente esses nativos e conferindo um caráter faccional às disputas pelo poder na região (ALMEIDA, 2017). O culto à presidência e à figura de Tubman também tem um papel essencial para compreender a sua longa permanência do poder liberiano, tendo ele, através de suas reformas, criado a sensação de uma ampla participação na vida nacional, sobretudo no âmbito político, entretanto, foi extremamente repressivo, ocorrendo prisões, execuções e exílio de opositores durante o seu governo (SPENCER, 2014). Ademais, a manutenção do regime de partido único ainda garantia a hegemonia américo-liberiana no poder (NOGUEIRA, 2003). Após a morte do presidente, em 1971, sendo sucedido por William Richard Tolbert, percebem-se os efeitos dos seus vinte sete anos de governo, tendo a população liberiana, que por muito tempo foi excluída, nota-se à margem e inicia um processo de ruptura com os governos da elite américo-liberiana, o que resultaria no golpe de Estado liderado por Samuel Doe e no assassinato de Tolbert em 1980. Essa consciência sobre a possibilidade de mudança política que se desenvolve principalmente entre os nativos da região também seria fundamental para o desenrolar da Guerra Civil na Libéria, a qual se estenderia até o século XXI (ALMEIDA, 2017). Nessa semana, a equipe do Relicário analisa o corpus documental com as correspondências íntimas que compõem o arquivo pessoal de William Vacanarat Shadrach Tubman durante o período em que foi presidente da Libéria, disponível digitalmente na página “Archives Online” da Universidade de Indiana. Ressalta-se, desse modo, a importância da tipologia epistolar para a análise historiográfica, visto que, o estudo de cartas possibilita a compreensão do momento biográfico dos sujeitos envolvidos no diálogo, ou seja, das dimensões culturais em que estão inseridos tanto o remetente como o destinatário, as quais influenciam diretamente no modo de escrita e de leitura dessas cartas naquele momento (MALATIAN, 2012). Diante do caráter subjetivo característico da fonte epistolar e da dinâmica de influências, ideias, interpretações e estratégias que podem ser identificados a partir do estudo desse gênero marcado pelo desejo de reciprocidade, podemos elucidar, por exemplo, os interesses coloniais dos EUA ao apoiar regimes repressivos na Libéria em troca do apoio para a política externa americana durante a Guerra Fria, como ocorreu durante a presidência de Tubman e no decorrer da ditadura empreendida pró Samuel Doe (ALMEIDA, 2017). Análise da documentação histórica Através da análise das cartas do período do governo de William Vacanarat Shadrach Tubman, podemos compreender um pouco mais sobre a opinião deste político em relação aos acontecimentos e a situação da Libéria. Para isto, selecionamos alguns dos documentos e coleções presentes no arquivo online da Universidade de Indiana, os quais se debruçam sobre aspectos culturais à problemas graves dentro do país. Estes escritos apresentam-nos, por exemplo, que em janeiro de 1949, a fim de comemorar o aniversário do presidente americano sugeriu-se o uso de pratos típicos libaneses e uma série de fotos que os “introduziriam para as donas de casa nos Estados Unidos.”. Recomendava-se ao presidente Tubman a seleção de pratos que possuíssem ingredientes ou fáceis de serem obtidos no país americano, ou substituídos, oferecendo a receita em seis fáceis passos para realizá-la. Tal documentação elucida a intenção em efetuar uma difusão dos costumes e alimentos do novo aliado estadunidense, solicitando a presença de fotos demonstrativas das fases da receita, incluindo ela já finalizada e pronta para servir na mesa de jantar do presidente, estabelecendo uma conexão não meramente política entre estes países, mas também cultural. A facilidade, principal indicador desta vontade, mostra-nos o desejo de que qualquer dona de casa pudesse copiar e se deliciar com um prato típico Libanês, buscando relacionar através das fotografias serem pratos comumente servidos nas refeições do próprio presidente Tubman, trazendo um novo status para a receita. O responsável pela ajuda ao presidente chamava-se Griffith J. Davis, apresentando-se, em uma carta não datada, como um jornalista responsável pela edição da Revista Ebony (Ebony Magazine) em Nova York, a qual tinha intenção de ser a maior organização de publicação de assuntos voltados a cultura negra no mundo. O editor se mostrava como animado com a possibilidade de trabalhar com William Tubman, buscando a sua ajuda neste projeto e a divulgação da cultura libanesa dentro do território americano. Apesar da sua vontade de tornar a Libéria independente economicamente dos Estados Unidos da América, o dito líder político ainda via nele o seu aliado mais próximo. Nem todas as cartas selecionadas se voltam para a relação internacional fomentada pelo presidente, muitas são correspondências pessoais enviadas por seus familiares e até mesmo pelos habitantes do país. Tais escritos denunciam uma prática, aparentemente, comum e, portanto, recorrente na qual o remetente da carta solicitava ajuda financeira tendo em vista determinado problema que passava. Em uma delas, encaminhada por uma moça chamada Elizabeth Gray, falava sobre a vergonha que ela sentia por ter tido sua luz cortada pela falta de pagamento, apelando, em nome de Deus, que Tubman emprestasse o dinheiro para pagamento da conta. Todas as cartas que se enquadravam nesta categoria encontradas pela equipe, possuíam um tom íntimo, referenciando ao presidente através de algum apelido ou pela forma que alguém próximo do solicitante o chamava (avós, pais, dentre outros). No corpo do texto comumente desejavam que Tubman estivesse bem e, em alguns casos, mencionavam momentos em que foram o ver e, ao fim, torciam por uma resposta positiva a sua solicitação. Através dos sobrenomes presentes nos documentos, assumimos que, apesar da intimidade e proximidade apresentada, tais correspondências não eram enviadas por familiares do presidente, mas sim realmente por pessoas comuns – percebemos inclusive erros gramaticais, os quais indicam uma baixa escolarização dos remetentes. Tal relação fomentada por William Tubman durante o seu governo, mostrou-se como determinante para a positiva adesão e suas contínuas reeleições, apesar da existência de problemas tais como os que mencionamos acima. Por fim, debruçando-nos sobre a maior rigidez e autoritarismo empreendido pelo governo de Tubman, não poderíamos deixar de destacar o rascunho sobre a tentativa de assassinato do presidente efetuada em 1955, principal motivo para a repressão política a oposição. O tiro, efetuado pelo ex-policial Paul Dunbar, só foi impedido de atingir a cabeça do presidente e causar a sua morte dada a intervenção do guarda, inspetor policial, James Beetman. A declaração tem como objetivo contar sobre o que aconteceu e a reação de Tubman perante a situação, bem como apresentar quantos estavam envolvidos, as perdas sofridas, a pena estabelecida perante o tribunal para os criminosos e a concessão do perdão à Dunbar feita em 1958, permitindo que ele saísse com vida da prisão. De acordo com o escrito dada a bondade do seu coração, Tubman não somente perdoa a tentativa, mas também foi responsável por conferir suporte financeiro para a sobrevivência de Dunbar, o qual, por causa de seus atos, não conseguia encontrar emprego. O documento busca oferecer ao seu leitor também um pouco sobre a história do presidente, apresentando brevemente de onde viria o seu nome de batizado cristão, justamente William Shadrach Tubman, sendo uma referência à um tio que havia sido assassinado e comido vivo durante a Guerra Tribal de 1875 e a seu avô, o qual apanhou até a morte por homens da tribo Grebo.[1] Seu avô chegou na Libéria em 1834, vindo da Georgia, ficando na cidade conhecida como Cidade de Harper na costa ocidental da África, diversos conflitos foram estabelecidos entre os recém-chegados américo-liberianos e a tribo Grebo dada a disputa pela terra, sendo em um desses embates que seu avô perdeu a vida, isso já 40 anos após a sua chegada dos Estados Unidos. Seu pai, ao nomeá-lo William, tal como o era seu avô, dizia que ele poderia estar destinado a uma morte violenta. Apresentando a origem do nome do presidente, a narrativa tenta mostrar ao leitor a origem do homem e os valores que seus antepassados e ele possuíam, sendo o seu avô um líder político da religião que morreu defendendo o cristianismo. As cartas destacadas aqui são apenas uma parte das documentações disponíveis no arquivo, conferindo uma nova perspectiva sobre os eventos que ocorreram durante o governo de William V. S. Tubman na Libéria, dessa forma, convidamos nossos leitores e curiosos a conhecerem esse rico arquivo e as importantes informações que tais escritos podem oferecer.









Correspondência pessoal de Tubman. Disponível em: Indiana University
















Rascunho descrevendo a tentativa de assassinato de Tubman.














Fotografia do presidente William Tubman, 1943.









Referências Bibliográficas


ALMEIDA, Alessandra Jungs de. Mobilização social, estabilidade política e legitimidade: as sociedades Poro e Sande na formação do estado na paz e nas guerras da Libéria. Trabalho de Conclusão de Curso - Curso de Relação Internacionais, Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande do Sul, 2017.


FRAQUETTO, Juliana De Moura. O conflito na Libéria. Revista Pesquisa, Arte e Opinião Unesp Ciência, ano 9, número 94. p. 12-14, março, 2018. Disponível em:< https://www2.unesp.br/portal#!/noticia/30548/artigo-o-conflito-na-liberia/>. Acesso em 18 de novembro de 2021.


MALATIAN, Teresa. Narrador, registro, arquivo. In: PINSKY, Carla Bassanezi; LUCA, Tania Regina de (orgs). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2012.


NOGUEIRA, João Franklin Abelardo Pontes. A intervenção humanitária em três quase-Estados africanos: Somália, Ruanda e Libéria. 2003. Tese de Doutorado. PUC-Rio. 2003.


SANTOS, Alexandre dos. Libéria quae sera tamen (ainda que tardia). Revista Inteligência, Rio de Janeiro, Nº 39, p. 170-185, outubro/novembro/dezembro, 2007.


SPENCER, Lígia Maria Fermino do Rosário da Luz. Perfil de país: Libéria. 2014. Dissertação de Mestrado – Curso de Gestão de Empresas, Instituto Universitário de Lisboa, Portugal, 2014.


SPOHR, Alexandre; ANDRIOTTI, Luiza; CERIOLI, Luíza. A formação dos Estados africanos: conflitos e construção da capacidade estatal. Relações Internacionais para Educadores (RIPE): África em foco. Porto Alegre: Editora da UFRGS, p. 101-134, 2013.


[1] Seu segundo nome, Vacanarat, foi dado por si próprio ao entrar em um clube político, o qual tinha como regra que os membros associados deveriam dar a si mesmos um “nome do clube”.

 
 
 

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