Zurara e sua "Chronica do Descobrimento e Conquista de Guiné"
- Relicário da História

- Oct 20, 2021
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Contextualização
Um relato de viagem medieval tem em vista mostrar os costumes, hábitos, caracterizações, arquitetura, religião e cores dos novos povos encontrados pelos navegadores ao redor do globo, seus autores buscam um certo distanciamento, voltando-se para uma descrição do que viveram e observaram em uma tentativa de enquadrar o estranho ao convencional e familiar. A Crônica dos feitos notáveis que se passaram na conquista da Guiné, escrita em 1453 por Gomes Eanes de Zurara, neste período Guarda-Mor da Torre do Tombo em Portugal, tem como intenção, mais do que relatar uma viagem e o viver de outros povos, enaltecer os príncipes da dinastia de Avis, especificamente a figura heroica do Infante Dom Henrique. Sua narrativa foi motivada pela guerra contra os mouros, sendo apresentado uma nova categoria étnico-racial: os mouros negros, ou guinéus, ou simplesmente pretos (MACEDO, 2018, p.196). Convêm destacar a extensão deste território, o qual foi neste período chamado de Costa de Guiné ou Guiné do Cabo Verde, denominação conferida após meados do século XVII, correspondendo atualmente a aproximadamente seis localidades africanas, a saber: Senegal; o arquipélago do Cabo Verde; Gâmbia, Casamance; a Guiné, e o litoral norte de Serra Leoa (Idem, p. 191).
Durante os séculos XIV e XV o reino de Portugal passa por um período de fomento a escrita da sua história, com a ascensão da Dinastia de Avis os soberanos direcionam a sua atenção à memorização dos grandes feitos contribuindo para a valorização do passado e presente deste povo, sendo tais escritos desenvolvidos majoritariamente sob o serviço do rei. A partir do início da expansão marítima, especificamente entre os séculos XV e XVI, as ações a serem retratadas ocorreram principalmente fora do reino, nos territórios de descobertas, guerras e conquistas, destacando o valor moral que os protagonistas das ações possuíam, sejam eles descobridores ou governadores locais, apresentam-nos as virtudes os guiavam a retidão e boa-venturança (FRANÇA, 2018, p.172-174). O contexto da expansão teve, portanto, um importante local no orgulho do povo português, colocando o reino no centro da ampliação do mundo, usando estes grandes homens como exemplos a serem seguidos, elegendo-os como merecedores de serem memorizados através da escrita (Idem, p.167-168).
Desde o início do quatrocentos as notícias que chegavam aos territórios europeus sobre as novas terras descobertas e as redes de comércio que se estabeleciam no continente africano passam a atrair viajantes e navegadores, bem como os governantes. O medo e o cenário hostil dominavam a imaginação dos primeiros descobridores, sendo tais condições desmentidas ou confirmadas pelas narrativas que passam a ser desenvolvidas, apresentando desde os melhores locais para as paradas, as águas mais tumultuosas, os melhores horários para se viajar, até a forma que seriam recebidos nos locais, sendo assim, do comércio à curiosidade sobre os novos locais, os interesses para se viajar diversificam-se. Por exemplo, as viagens para a costa da Guiné, depois de Ceuta, eram sempre penosas, sendo comumente breves, de forma que durante anos nunca foi possível aos portugueses realmente conhecer os povos que estavam lá. Dessa maneira, os relatos voltavam-se ao clima, vegetação e as diferenças substantivas que possibilitariam a facilidade do comércio, mas não propriamente o conhecer destes homens (ALMEIDA, 2019, p.286-287).
Considerando tais dificuldades, a vontade de estabelecer um ponto fixo e seguro nestes locais (o que aprendemos a chamar de feitorias) era intuito não só dos próprios governantes, mas também dos comerciantes europeus, permitindo e facilitando o contato para efetuar as trocas, benéficas tanto para os africanos, os quais nem sempre conseguiam, por causa do clima, produzir determinado produto, quanto para os portugueses, não só na compra de escravos, mas também pela compra de novas especiarias e pedras preciosas. Tendo em vista a ocupação árabe e a familiaridade que os portugueses já possuíam, muitas vezes a primeira comunicação com os povos africanos se dava através do intermédio destes, tendo casos em que se estabeleceu tratados e acordos de exclusividade comercial (exceto para os outros povos locais, com os quais as trocas já ocorriam há muitos anos), buscando facilitar o processo. Paralelamente, neste contato, passam a se reconhecer dentre os povos africanos homens que seriam considerados “ricos” uma “nobreza”, os quais já teriam viajado e conheciam outros territórios, bem como outras línguas (valorizando-se majoritariamente o árabe), sendo, portanto, escravos mais valiosos que os demais.
Entretanto, o principal objetivo dos portugueses não era, como comumente aprendemos, o simples comércio e exploração dessas regiões, antes encaravam tais descobertas como um desígnio divino para a cristianização destes povos que ainda não estavam, como apresentado pelo viajante Luís Cadamosto, completamente vinculados a fé maometana (CADAMOSTO, 1944, p.23). Zurara, apesar das diferenças, reconhece nas similaridades que seriam todos descendentes de Adão, mas dado o desconhecimento não poderiam levar a vida à semelhança do Criador, sendo admirável as obras de Dom Henrique finalmente conduzindo-os ao caminho da salvação (ALMEIDA, 2019, p.166-168). Tal proximidade, inclusive, causa comoção no cronista ao apresentar a chega dos cativos no sul de Portugal e a separação de uns dos outros, notando o sofrimento desta gente (Idem, p.284).
Análise da fonte
E vos devees bem de notar que a magnanydade deste príncipe, per huũ natural constrangimento, o chamava sempre pera começar e acabar muy grandes feitos, por cuja razom depois da tomada de Cepta, sempre trouxe continuadamente navyos armados contra os infiees; e porque elle tinha vontade de saber a terra que hya a allem das ilhas de Canarya, e de huũ cabo, que se chama do Bojador (ZURARA, 1841, p. 44).
O excerto supracitado integra a obra Chronica do Descobrimento e Conquista de Guiné, produzida pelo cronista português Gomes Eanes de Zurara entre os anos 1451 e 1454, encomendada por D. Afonso V, então rei de Portugal, para celebrar o empreendimento expansionista português na África, em especial os feitos do infante Dom Henrique no processo de primeiros contatos e conquista da Guiné. Por meio da crônica, pretendia-se conseguir autorização pontifícia para que fossem legitimados os territórios conquistados por Portugal nesse continente, além de consentimento para suas cruzadas e uma justificativa para a execução do processo de conversão religiosa dos povos nativos (MARCELINO, 2021). Vale ressaltar que, embora Zurara tenha conhecido o continente africano, esse escritor nunca visitara a Guiné e, portanto, não conhecera pessoalmente o território sobre o qual estava escrevendo (GUIMARÃES, 2011).
Registrando que D. Henrique se dedicara a percorrer os territórios do continente africano tendo entre seus objetivos encontrar portos que possibilitassem a navegação e o estabelecimento de comércio, avaliar o nível de poder dos mouros e, ao mesmo tempo, disseminar a fé cristã “[...] e trazer a ella todallas almas que se quisessem salvar [...]” (ZURARA, 1841, p. 47), Zurara também enfatiza que a captura dos primeiros cativos africanos pelos viajantes lusos não foi planejada pelo infante, que havia solicitado que somente fossem enviados a Portugal bens como coirama[1], azeite e lobo-marinho. Além disso, ainda que não tivesse testemunhado nenhum dos acontecimentos que registrou, o escritor demonstra ter conhecimento sobre as características dos indivíduos capturados para o trabalho escravo quando, ao descrever determinada cena composta por um grupo de escravos, explica que tal grupo seria composto por indivíduos brancos, pardos e negros. Esse fator de diversidade étnica passa a funcionar para que a justificativa acerca da captura e escravização de indivíduos nesses territórios tivesse o elemento “racismo” amenizado pela perspectiva europeia, que se voltava para uma argumentação alicerçada nos fatores guerra e conversão – no tocante aos cativos mouros e moçárabes (MAESTRI, 2009). O cronista continua, destacando que
ca huũs tiinham as caras baixas, e os rostos lavados com lagrimas, olhando huũs contra os outros; outros estavam gemendo muy doorasamente, esguardando a altura dos ceeos, firmando os olhos em elles, bradando altamente, como se pedissem acorro ao padre da naureza; outros feryam su rosto com suas palmas, lançandosse tendios em meo do chão; outros faziam suas lamentaçooẽs em maneira de canto, segundo o costume de sua terra [...] (ZURARA, 1841, 133).
D. Henrique teria enviado em busca da Guiné o capitão Gomes Piz, almejando não somente o “descobrimento” do local, mas também a obtenção de informações sobre sua população e o enquadramento desta nas teorias científicas, históricas e geográficas que circulavam no meio europeu daquele período.[2] Para essa empreitada, o capitão recrutou homens que quisessem colaborar para o cumprimento do proposto pelo infante, seguindo viagem pela costa do continente africano em seis caravelas, passando o deserto do Saara e a terra dos mouros, esta última, de acordo com Zurara, sendo o destino de muitas aves comuns em Portugal, que fugiam do inverno do país europeu em busca de aquecimento nessas terras da África.
Retomando a escrita acerca do percurso da viagem, o cronista descreve que as caravelas alcançaram um local marcado por duas palmeiras e que se caracterizava como a chegada a seu destino, observando que as populações nativas desse local se mostraram receptivas com os viajantes, destacando que essa terra, sendo predominantemente habitada por negros, recebera o nome de “[...] terra dos Negros, ou terra de Guinee, por cujo aazo os homẽs e molheres dela som chamados de Guineus, que quer tanto dizer como negros” (ZURARA, 1841, p. 278). Ao ressaltar o contato que teve com a população nativa, o cronista aponta que um deles foi ensinado a ler e escrever pelo próprio D. Henrique, além de ter aprendido também orações cristãs, o que evidencia o esforço catequizador sempre presente nesses empreendimentos. Por meio desse contato, os europeus também descobrem alguns costumes da população da Guiné, como o uso do couro de elefante na confecção de escudos.
É registrado, ainda, que os portugueses tentaram negociar com os mouros a troca de panos por indivíduos da Guiné, conseguindo atrair esses mouros para o local em que se fixaram por meio de sinais de fumaça, obtendo resposta a seu chamado apenas três dias depois:
[...] passados tres dyas os Mouros começarom de viir, com os quaaes Gomes Piz começou de falar per seus entrepetadores, requerendo que lhe fezessem ally trazer alguũs Guineus, pollos quaes lhe daryam troco de pano. Nós, responderom elles, nom somos mercadores, nem os teendes aquy acerca, ante som pella terra dentro a trautar suas mercadaryas [...] (ZURARA, 1841, p. 421).
Os portugueses solicitaram aos mouros que os colocassem em contato com esses mercadores de “terra adentro” oferecendo, em troca, uma recompensa. O cronista registra que os mouros aceitaram a proposta e recolheram sua recompensa, mas nunca retornaram com os mercadores.
Elucidamos na análise alguns dos vários acontecimentos registrados por Zurara em sua Chronica do Descobrimento e Conquista de Guiné, documento que presta grande contribuição para que se possam ser percebidas as relações estabelecidas entre os portugueses e os povos com que tiveram contato dentro do continente africano – em especial com os mouros e as populações que habitavam a Guiné –, assim como para a compreensão das primeiras impressões dos indivíduos europeus sobre esses territórios até então por eles desconhecidos, sua natureza e os grupos que o habitavam. Ademais, essa fonte, embora dê maior enfoque aos acontecimentos que se desenrolaram entorno da conquista da Guiné, evidencia a conjuntura histórica que envolveu o ímpeto expansionista na África durante a Idade Média, assim como as intenções e objetivos europeus com esse esforço conquistador.
[1] Planta de origem incerta e que possui atributos medicinais. Cf: CORREIA, Manuel Pio. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil, volume II. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura, 1931. [2] Essa informação foi obtida a partir de uma nota deixada no texto pelo editor da edição da crônica que utilizamos.

Dom henrique, o Navegador.
(créditos: Wikimedia Commons)

Chronica do Descobrimento e Conquista de Guiné (edição de 1841)
(créditos: Biblioteca Nacional de Portugal)

Estátua de Zurara
(créditos: Wikimedia Commons)

Mapa da África no livro "Viagens de Pedro da Covilhan"
(créditos: Wikimedia Commons)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Fonte:
ZURARA, Gomes Eanes de. Chronica do Descobrimento e Conquista de Guiné, escrita por mandado de el Rei D. Affonso V, sob a direcção scientifica, e segundo as instrucções do illustre Infante D. Henrique / pelo chronista Gomes Eannes de Azurara ; fielmente trasladada do manuscrito original contemporaneo, que se conserva na Bibliotheca Real de Pariz, e dada pela primeira vez à luz per diligencia do Visconde da Carreira... ; precedida de uma introducção, e illustrada com algumas notas, pelo Visconde de Santarem... e seguida dªum glossario das palavras e phrases antiquadas e obsoletas. - Paris: publicada por J. P. Aillaud na Officina Typographica de Fain e Thunot, 1841.
Bibliografia:
ALMEIDA, Paula Sposito. Os africanos que mereceram destaque na cronística da expansão portuguesa do século XV. Revista do PPGH/UFC Em Perspectiva, v. 5, n.1, 2019, p.283-301.
_____. Do estranho ao comum nas idas e vindas entre Portugal e África no século XV. Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais de Franca, 2019.
CADAMOSTO, Luís de. Navegações de Luís de Cadamosto. Texto em italiano e tradução portuguesa por Dr. Giuseppe Carlo Rossi. Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1944.
FRANÇA, Susani Silveira Lemos. Investidas moralizantes na história da expansão portuguesa. In: RIBEIRO, Maria E. de B.; FRANÇA, Susani S. L. (org.). A escrita da história de um lado ao outro do Atlântico. São Paulo: Editora Cultura Acadêmica, 2018, p. 167-190.
GUIMARÃES, Jerry Santos. Memória e Retórica: Mouros e Negros na “Crônica de Guiné” (Século XV). In: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011.
MACEDO, José Rivair. Narrativas portuguesas sobre a Costa da Guiné: Séculos XV-XVIII. In: RIBEIRO, Maria E. de B.; FRANÇA, Susani S. L. (org.). A escrita da história de um lado ao outro do Atlântico. São Paulo: Editora Cultura Acadêmica, 2018, p. 191-212.
MAESTRI, Mário. Zurara: A Crónica de Guiné e os Primórdios do Racismo Anti-Negro. In: Cleito Pereira dos Santos; Nildo Viana (org.). Capitalismo e questão racial. Rio de Janeiro: Corifeu, 2009.
MARCELINO, Mara Lúcia Cabral. A imagem dos “Negros da Guiné” no contexto da expansão marítima Portuguesa: a crônica de Gomes Eanes de Zurara (1453). 2020. 89f. Dissertação (Mestrado em História Ibérica) - Universidade Federal de Alfenas, Alfenas/MG, 2021.




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