"What to the Slave is the Fourth of July" (1852), de Frederick Douglass
- Relicário da História

- May 26, 2021
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Contextualização e análise da fonte
Eu não estou incluso no âmbito desse glorioso aniversário! Sua grande independência apenas revela a imensurável distância entre nós. As bençãos de que vocês, nesse dia, se alegram, não são aproveitadas em comum. – A rica herança de justiça, liberdade, prosperidade e independência, legada de seus pais, é compartilhada por vocês, não por mim. [...] Esse quatro de julho é seu, não meu (DOUGLASS, 1852).[1][2]
O excerto acima, integrante do discurso What to the Slave is the Fourth of July? (1852), proferido pelo abolicionista afro-americano Frederick Douglass em comemoração ao aniversário da Independência dos Estados Unidos, evidencia os sentimentos do autor de que, para ele e aqueles cujos direitos defendia – a população escravizada –, o quatro de julho não representava um momento de comemorações.
Frederick Douglass nasceu entre os anos de 1817 e 1818, em Maryland, como escravo, sob o nome Frederick Augustus Washington Bailey. Aprendeu a ler e escrever quando, ainda jovem, foi mandado para trabalhar em Baltimore e conseguiu escapar da escravidão em 1838, fugindo para Nova York (DOUGLASS, 2005). Foram suas crenças religiosas e sua experiência como escravo e, também, como homem livre que contribuíram para que fosse moldada e desenvolvida sua identidade racial, sendo seus pensamentos de grande relevância para a história afro-americana do século XIX (MARTIN, 1984). Tendo começado a participar de reuniões abolicionistas, conseguiu destaque como orador e foi recrutado pela Massachusetts Anti-Slavery Society. Com a publicação de seu livro autobiográfico, Narrative of the Life of Frederick Douglass an American Slave (1845), Douglass passou a conquistar diversos cargos governamentais, sempre voltados para o combate ao racismo (PINHEIRO, 2021).
Ao longo de seu discurso, destaca-se a grande importância dos pais fundadores da nação para o processo de independência dos Estados Unidos que, revoltados com a tirania e injustiça britânicas, buscaram reparação, resistindo contra o tratamento dispensado a si pelos ingleses. Segundo o abolicionista, foi frente a essa revolta com a Coroa Britânica que a ideia da separação entre colônias e metrópole surgiu e, graças às boas resoluções dos pais fundadores, teve sucesso. Com isso, o 4 de julho se tornou um grande dia para a história dos Estados Unidos, o orgulho e o patriotismo incitando os cidadãos a comemorarem essa lembrança.
A Declaração da Independência dos Estados Unidos marcou o auge das discussões políticas e morais acerca da escravidão (BRITO, 2014), as quais ganharam ainda mais força no século XIX, com as Igrejas reformistas do Segundo Despertar – por sua vez, marcado pela crença dessas Igrejas na transformação do mundo pelas ações humanas. Essas instituições não contribuíram apenas para disseminar a ideia de que a escravidão era um pecado, mas também forneceram novos locais para reuniões de grupos abolicionistas e de máquinas para a publicação de jornais (PINHEIRO, 2021). No entanto, mesmo nesse novo momento da história norte-americana, argumentos embasados em uma suposta inferioridade dos negros e na legitimação da escravidão pela Bíblia passaram a ser utilizados como justificativa para a continuidade do regime escravocrata (BRITO, 2014).
Douglass, pontuando que não via motivos para adentrar mais ainda nos acontecimentos passados envolvendo os pais fundadores, destaca que seu dever é com o presente. Admite que, apesar dos grandes feitos daqueles homens na conquista da liberdade para o povo da América do Norte, essa libertação foi falha com os escravos e questiona, enfim:
Companheiros cidadãos, perdoem-me, permitam-me perguntar, porque fui chamado para falar aqui hoje? O que tenho eu, ou aqueles que eu represento a ver com sua independência nacional? Os grandes princípios da liberdade política e justiça natural, corporificados na Declaração da Independência, se estendem a nós? e eu, portanto, fui chamado aqui para trazer nossa humilde oferenda para o altar nacional, e confessar os benefícios e expressar gratidão devota para as bençãos resultadas de sua independência para nós? (DOUGLASS, 1852)[3]
Douglass persistiu mantendo a crença de que o preconceito racial um dia acabaria, em função da elevação de um sentimento de fraternidade humana (MARTIN, 1984). Desta forma, declara em seu discurso ser grato pelo fato de os Estados Unidos, então com 76 anos, serem uma nação ainda jovem, pois isso, para ele, significava que ainda haviam esperanças de que as nuvens sombrias que via no horizonte se dispersassem, a pouca idade do país servindo como consolação a possibilidade de um futuro mais próspero para seus ideais.
Seguindo seu discurso, o abolicionista começa a levantar uma série de questões relacionadas ao passado da nação americana para o público. Ao evocar a historicidade do quatro de julho, o autor provoca a plateia perguntando quais teriam sido as principais ideias que moldaram a proclamação da independência, as quais ele mesmo responde: liberdade, igualdade. Foi partindo desses questionamentos inicias, que Frederick Douglass justificaria o motivo pelo qual discursava sobre o memorável quatro de julho: a hipocrisia da nação americana em comemorar a independência e seus ideais máximos de liberdade que não se estendiam aos homens negros escravos.
Washington não podia morrer até que ele tivesse quebrado as correntes de seus escravos. No entanto, seu monumento é construído pelo preço do sangue humano e os comerciantes, nos corpos e nas almas dos homens, gritam: “Temos Washington como ‘nosso pai’” – Ai de mim, que deva ser assim, mas assim é (DOUGLASS, 1852).[4]
Seria pronunciando essas palavras que o abolicionista afro-americano daria impulso ao seu discurso, o qual refletiria sobre a atual prática da escravatura e os antagonismos da constituição e da religião dentro do território norte-americano. Tendo se apresentado ao público e seu motivo para discursar, Douglass passaria então a abordar dois entraves da sociedade americana: o comércio interno de escravos e a Lei do Escravo Fugitivo.
Desde aprovação no congresso americano pela proibição da importação de escravos para os Estados Unidos em 1807-1808, um novo modo de se adquirir cativos surgia pelo tráfico interestadual de escravos no país (MARQUES, 2017). Tal comércio, ao contrário do que ocorria com o tráfico ultramarino de escravos, era legal e muito utilizado pelos estados do Sul sendo a Virgínia uma das maiores bases de operação destes (MARQUES, 2017). Outro fator que contribuía para que a escravidão se formalizasse ainda mais no seio da nação americana foi a Lei do Escravo Fugitivo (1852) que permitia a perseguição de negros fugitivos dos estados do Sul serem recapturados nos estados nortistas caso seus proprietários declarassem sua apreensão. Era diante desses fatos que o próprio Frederick Douglass ainda ressaltava pelo seu discurso a injustiça com que a nação americana tratava aqueles que deveriam ser tratados como cidadãos, os escravos:
Aqui, vocês verão homens e mulheres criados como suínos para o mercado. Vocês sabem o que é um criador de suínos? Eu lhes apresentarei um criador de homens. Eles habitam todos nossos estados sulistas. Eles perambulam o país e lotam as estradas da nação com caravanas de matéria-prima humana. Vocês verão um desses mercadores de carne humana, armado com pistola, chicote e faca bowie guiando uma companhia de centenas de homens, mulheres e crianças, desde o Potomac até o mercado de escravos em Nova Orleans. Estas pessoas desafortunadas serão vendidas individualmente ou em lotes, a fim de atender aos compradores. Elas são comida para os campos de algodão e para o funesto moinho de açúcar (DOUGLASS, 1852).[5]
Prosseguindo sua oratória, o abolicionista comenta o papel que a Igreja e a constituição também teriam sobre a perpetuação da escravidão no país. Ao abordar algumas das instituições religiosas nos Estados Unidos, Douglass ressalta como era errôneo e contraditório a concepção de que tal forma de trabalho era um dos desígnios de Deus dado a certos homens. De acordo com o autor:
No mesmo momento em que estão agradecendo a Deus pelo gozo da liberdade civil e religiosa e pelo direito de adorar a Deus de acordo com os ditames de suas próprias consciências, eles estão totalmente silenciosos em relação a uma lei que rouba a religião de seu principal significado e a torna totalmente inútil para um mundo imerso em maldade (DOUGLASS, 1852).[6]
Portanto, para Douglass era incoerente o reconhecimento que os fiéis americanos tinham acerca da liberdade e da humanidade consagradas por Deus aos homens, já que, pelas concepções desses últimos ela não se estendia a todos os seres, o que na verdade, como pensava Douglass, deveria ser. Além das críticas levantadas as igrejas americanas, o autor ainda compara essas últimas com as instituições religiosas inglesas que aderiram muito mais rápido ao ideal abolicionista.
Por fim, o último ponto a ser tratado pelo discurso é a constituição americana. Remontando aos pais fundadores da nação, Frederick Douglass destaca mais uma vez como a interpretação incorreta do documento jurídico mais importante dos Estados Unidos leva-o a ser considerado uma fonte legitimadora da escravidão. Para o abolicionista, a associação entre a constituição e a escravatura era uma desonra a memória dos fundadores que defendiam a criação de uma nação baseada nos ideais da liberdade postulada pelos seus escritos. Mesmo enfatizando em seu discurso sua revolta e desânimo em relação a perpetuação da escravidão dentro da sociedade democrática americana, Douglass não deixa de expressar seu tom otimista sobre a emancipação dos negros americanos pela revisão constitucional. A liberdade dos escravos não era apenas uma defesa aos direitos naturais de todos os homens, mas também a proteção do princípio democrático (WILSON, 2012).
[1] Todas as traduções foram feitas de forma livre pela equipe do Relicário da História responsável pela produção do texto. Vale ressaltar que a leitura da fonte foi feita por meio da transcrição no site commonlit.org. O panfleto original digitalizado, por sua vez, se encontra no site archive.org. [2] “I am not included within the pale of this glorious anniversary! Your high independence only reveals the immeasurable distance between us. The blessings in which you, this day, rejoice, are not enjoyed in common. – The rich inheritance of justice, liberty, prosperity and independence, bequeathed by your fathers, is shared by you, not by me. [...] This Fourth [of] July is yours, not mine.” [3] “Fellow-citizens, pardon me, allow me to ask, whai am I called upon to speak here to-day? What have I, os those I represent, to do with your national Independence? Are the great principles of political freedom and of natural justice, embodied in that Declaration of Independence, extended to us? and am I, therefore, called upon to bring our humble offering to the national altar, and to confess the benefits and express devout gratitude for the blessings resulting from your Independence to us?” [4] “Washington could not die till he had broken the chains of his slaves. Yet his monument is built by the price of human blood, and the traders in the bodies and souls of men, shout, "We have Washington as 'our father'" – Alas! that it should be so, but so; yet so it is.” [5] “Here you will see men and women, raised like swine, for the market. You know what is a swine-drover? I will show you a man-drover. They inhabit all our Southern States. They perambulate the country, and crowd the highways of the nation, with droves of human stock. You will see one of these human flesh jobbers, armed with pistol, whip and bowie-knife, driving a company of a hundred men, women and children, from the Potomac to the slave market at New Orleans. These wretched people are to be sold singly, or in lots, to suit purchasers. They are food for the cotton-field, and the deadly sugar mill.” [6] “At the very moment that they are thanking God for the enjoyment of civil and religious liberty, and for the right to worship God according to the dictates of their own consciences, they are utterly silent in respect to a law which robs religion of its chief significance, and makes it utterly worthless to a world lying in wickedness.”

Frederick Douglass

Página 14 do panfleto
Fonte:
DOUGLASS, Frederick. What to the Slave is the Fourth of July? Rochester: Lee, Mann & Co. American Building, 1852.
Bibliografia:
BRITO, Luciana da Cruz. Impressões Norte Americanas sobre Escravidão, Abolição e Relações Raciais no Brasil Escravista. Tese (Doutorado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2014.
DOUGLASS, Frederick. The Narrative of the Life of Frederick Douglass: na American Slave. EUA: ICON Classics, 2005.
MARQUES, Leonard. O tráfico interestadual de escravos nos Estados Unidos em suas dimensões globais, 1808-1860. Scielo, 2017. Disponível em: < https://www.scielo.br/j/tem/a/PFSp8fq7vkcyTW5ccnhNg8R/?lang=pt#:~:text=Evid%C3%AAncias%20de%20um%20contrabando%20de,guerra%20civil%20iniciada%20em%201861> Acesso em: 24 de mai, 2017.
MARTIN, Waldo E. The Mind of Frederick Douglass. EUA: The Universtiy of North Carolina Press, 1984.
PINHEIRO, Marcos Sorrilha. 5 Abolicionistas da História dos EUA – Pitadinha Histórica #15. Youtube, 12 de maio de 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fX9a2IDK5dc. Acesso em: 23 de maio de 2021.
WILSON, Ivy. Specters of democracy: blackness and the aesthetics of politics in the antebellum U.S. Oxford: Oxford University Press, 2012.




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