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Thanksgiving

  • Writer: Relicário da História
    Relicário da História
  • Jun 9, 2021
  • 7 min read

Updated: Jun 16, 2021

Contextualização

A análise de celebrações e tradições impulsiona questões em torno das narrativas que são produzidas e do imaginário produzido nos sujeitos históricos. Em virtude disso, o famoso feriado estadunidense denominado por Thanksgiving possibilita observar a invenção de uma representação histórica e a manifestação de elementos unificadores, destinando à sua população não apenas quatro dias de feriado, os jogos de futebol transmitidos pela televisão, o consumo de determinados alimentos, atos de caridade realizados por instituições e membros da sociedade civil, como também incidindo sobre outras concepções do período celebrado, canalizando em contestações sobre uma suposta perspectiva mítica.

O Dia de Ação de Graças ou Thanksgiving, remonta ao episódio ocorrido em 1621 em Plymouth (Massachusetts) envolvendo peregrinos ingleses e nativos americanos, quando supostamente os dois grupos teriam comemorado o primeiro Dia de Ação de Graças ao compartilhar uma refeição. Contudo, foi apenas no ano de 1863 que o dia se tornou feriado nacional nos Estados Unidos através do Presidente Abraham Lincoln, no contexto da guerra civil americana. Assim, o desenvolvimento de uma identidade nacional esteve direcionado conforme a atuação de grupos puritanos do século XVII que desembarcaram em terras coloniais [RIBEIRO, 2013].

O fato ilustrava, além disso, o sucesso dos colonos na Nova Inglaterra com a profícua colheita no final do verão daquele ano de 1621. Dentro desse contexto conferia às incursões pelo território, a partir dos novos desembarques, conflitos diretos com a população indígena, somado a presença de doenças, tais como gripe e catapora, que não dispunham de proteção imunológica. Com efeito, concebe-se que nas aldeias costeiras de Wampanoag e também outras tribos da nação Algonquina, nove em cada dez nativos morreram. [FELDMAN, 2014]. Por outro lado, o dia de Ação de Graças remete que ao chegar por terras novas, indígenas amistosos auxiliariam em sua estadia diante do inverno que não estavam preparados, ofertando-lhes comida. É, pois com a mudança de temperatura e com as primeiras colheitas - que contaram com a ajuda dos indígenas - que peregrinos de Plymouth teriam comemorado em conjunto o sucesso da colheita. [ADAMCZYK, 2002].

Dos 120 colonos ingleses que vieram a bordo do navio Mayflower e depararam-se com o inverno de 1620, apenas 45 conseguiram sobreviver. À vista disso, em situação enferma, o grupo foi ajudado por Massasoit, chefe dos Wampanoag, com Squanto atuando como “intérprete”. Os nativos não apenas contribuíram com a proteção contra o inverno, as doenças do grupo, como transmitiram ensinamentos sobre plantas e animais a evitar como igualmente com o que se alimentar. Cumpre destacar que embora o relato Of Plymouth Plantation de William Bradford descreva a presença amistosa dos indígenas reunidos com seu líder Massassoit nesta refeição, simultaneamente o panorama histórico indica a continuação da morte dessas populações nativas ao passo que, os peregrinos qualificaram a Deus o fato, pois, eram o povo escolhido para a terra prometida. [FELDMAN, 2014].

O estabelecimento do Thaksgiving Day por Abraham Lincoln em 1863, após a batalha de Gettysburg, perpassou pelo incentivo de Sarah Josepha Hale que, não apenas influenciou o presidente, como desempenhava a edição da Boston Ladies Magazine, assim, salientava aspectos nacionais e domésticos do feriado. Suas preocupações na época relacionavam o feriado com o regresso ao lar, a reunião em família em um contexto de intenso patriotismo como resultado do término da Guerra Civil. Em função desse breve contexto histórico apresentado, centramos o significado da tradição enquanto construção de memória coletiva, na qual figura uma mensagem simbólica. [ADAMCZYK, 2002]. A confraternização[1] estipula uma conexão dos cidadãos com uma comoção da identidade de ser americano, unindo laços afetivos da família e a áurea de patriotismo e religião. [SISKIND, 1992] Por outro lado, atualmente os indígenas reivindicam outro discurso revisando-o como mais apropriado estabelecer o feriado como Dia Nacional do Luto, atentando sobre suas ancestralidades e as consequências que grupos nativos experienciaram para sobreviverem. [WIBBY, 2019]


Análise da fonte

O ano que se aproxima de seu encerramento foi preenchido com as bênçãos de campos férteis e céus saudáveis. A estas dádivas, que são tão apreciadas constantemente que temos a tendência de esquecer a fonte de onde provêm, foram acrescentadas outras de natureza tão extraordinária que não podem cair para penetrar e amolecer até mesmo o coração que é habitualmente insensível à providência sempre vigilante de Deus Todo-Poderoso. [2] [3]

Publicado pelo jornal intitulado “Harper’s Weekly” em 17 de outubro de 1863, o pronunciamento feito pelo então presidente Abraham Lincoln descrevia e marcava o surgimento oficial de um importante feriado nacional americano: o Dia de Ação de Graças. No rol dos atos comemorativos que seriam praticados nessa época chama nossa atenção as músicas feitas para a celebração desses dias como o “Hino de ação de graças” composto e publicado pelos autores James B. Taylor e Muhlenburgh também no ano de 1863.

Escritos ainda no período da Guerra Civil Americana, tais documentos nos revelam um importante objetivo que se buscava atingir nos Estados Unidos: o resgate da unidade nacional. Desde a proposta para a criação da data comemorativa por George Washington em 1789, o Dia de ação de graças era uma celebração secular, ou seja, visava reforçar o ideal libertário e revolucionário da nação americana e sua fundação [RIBEIRO, 2013]. Contudo, tal feriado ao longo dos anos incorporaria também um viés religioso, pois junto com a comemoração dos ideais fundadores da pátria se celebrariam também o fato de os americanos formarem e pertencerem a uma única nação sagrada e destinada por Deus.

O Dia de Ação de Graças representava então tanto uma comemoração dos valores criados para fundação da nação americana quanto seu legado protestante e seu caráter religioso unitário, que dava sentido ao imaginário americano de todos pertencerem a uma comunidade divina [RIBEIRO, 2013]. Dessa forma, ao consolidar tal feriado Lincoln tinha por objetivo utilizar a fé e os valores republicanos imbuídos nessa data festiva como uma estratégia governamental para solucionar o desarranjo político interno causado pela Guerra Civil. Como defende o cientista em religiões Mircea Eliade, as celebrações são instrumentos essenciais para uma nação, pois tais constituem-se em elementos estruturantes das sociedades. Ao proclamar o Dia de Ação de Graças, Lincoln procurava construir uma possiblidade de se pensar a pátria de uma forma multirracial e multicultural, ou seja, pretendia alcançar uma coesão social na qual podemos ver pelo seu discurso:


convido meus concidadãos em todas as partes dos Estados Unidos, e também aqueles que estão no mar, e aqueles que estão peregrinando em terras estrangeiras, a separar e observar a última quinta-feira de novembro próximo como um Dia de Ação de graças e oração ao nosso Pai benéfico que habita nos céus. [4]


Para além da proclamação de Lincoln, outros discursos e manifestações comemorativas buscariam também retratar esse espírito unitário e pacífico entre os americanos como vemos nos trechos do “Hino de ação de graças”:

“III/ Para a mesa ampla da Nação, propagação transbordante,

Onde os muitos se banquetearam, e todos foram alimentados,

Sem qualquer tipo de escravidão, seus direitos divinos de encantar,

Mas a Liberdade guardada pela Justiça para todos:

Agradecer/ VII Tampouco atravessareis nossas fronteiras, vós de coração ferido,

Apenas lamentando seus mortos, na alegria não têm parte:

O consolo de Deus seja seu, e para lá fluirá

Todas essas honras e simpatias podem ser concedidas.

Agradecer...” [5] [6]


Percebe-se pela composição de James B. Taylor e Muhlenburgh o constante ato de agradecimento que deveria ser seguido no Dia de Ação de Graças, isso porque, além de se sentirem incluídos em uma só nação americana, os estadunidenses também deveriam gratificar sua pátria por lhe oferecer liberdade, paz e prosperidade. Dessa maneira, o “Hino de ação de graças” é um exemplo de celebração que nos demonstra como os americanos eram relembrados do significado e da importância da unidade da nação e de que forma essa era uma manifestação sagrada. Mesmo a Guerra Civil pondo em xeque a comunhão entre os cidadãos americanos, o Dia de Ação de Graças oficializado por Lincoln e celebrado pelos músicos James B. Taylor e Muhlenburgh, nos evidenciam como a religiosidade e o feriado foram importantes para que diferentes realidades e identidades fossem reunidas e pudessem conviver em uma nação onde datas comemorativas como essa recordassem o povo americano o significado da ideia de povo.


[1] O peru representa um símbolo essencial do dia de Ação de Graças [2] “The year that is drawing toward its close has been filled with the blessings of fruitful fields and healthful skies. To these bounties, which are so constantly enjoyed that we are prone to forget the source from which they come, others have been added which are of so extraordinary a nature that they can not fall to penetrate and soften even the heart which is habitually insensible to the ever-watch- ful providence of Almighty God.” [3] Todas as traduções foram feitas de forma livre pela equipe Relicário da História, a partir do documento “A Proclamation by the President of the United States of América” fonte disponível em formato digital pelo acervo do instituto de história americana The Gilder Lehrman em sua plataforma: https://www.gilderlehrman.org/history-resources/spotlight-primary-source/thanksgiving-proclamation-1863. [4]“[...] invite my fellow-citizens in every part of the United States, and also those who are at sea, and those who are sojourning in foreign lands, to set apart and observe the last Thursday of November next as a Day of Thanksgiving and Prayer to our beneficent Father who dwelleth in the heavens.” [5] “III- For the Nation’s wide table, o’erflowingly spread,/ Where the many have feasted, and all have been fed,/With no bondage, their God-given rights to enthral,/But Liberty guarded by Justice for all: Give thanks- VII- “Nor shall ye through our border, ye stricken of heart,/ Only wailing your dead, in the joy have no part:/ God’s solace be yours, and for you there shall flow/ All that honor and sympathy’s gifts can bestow. Give thanks.” [6] Todas as traduções foram feitas de forma livre pela equipe Relicário da História, a partir do documento “Thanksgiving hymn” fonte disponível em formato digital pelo acervo da Library of Congress em sua plataforma: https://www.loc.gov/resource/ihas.200002043.0/?sp=4.





Ilustração representando o Dia de Ação de Graças, 1913- Crédito da imagem: Library of congress









Proclamação feita por Linconl oficializando o dia de Ação de Graças, 1863- crédito da imagem- The Gilder Lehrman












Thanksgiving hymn, 1863- Composição feita por James B. Taylor e Muhlenburgh- crédito da imagem: Library of congress







Dança de Ação de Graças, Oraibi, Arizona, 1899- A fotografia representa homens e mulheres da reserva indígena Hopi comemorando o feriado- Crédito da Imagem: Library of Congress


Fontes

LINCOLN, Abraham. A Proclamation by the President of United States of America. Estados Unidos, “Harper’s Weekly”, 1863.


TAYLOR, James B; MUHLENBURGH. Thanksgiving hymn. Nova York, Firth. Son & CO. 563 Broadway, 1863.


Referências bibliográficas

ADAMCZYK, Amy. On Thaksgiving and Collective Memory: Constructing the American Traditional. Journal of Historical Sociology, v. 15, n. 3, p. 343-365


FELDMAN, Alba Krishna Topan. Implicações históricas e identitárias do dia de Ação de Graças para o indígena estadunidense em uma obra de Sherman Alexie. Acta Scientiarum, Maringá, v. 36, n. 3, p. 263-273, July-Sept, 2014.


RIBEIRO, Paulo Rodrigues. O Dia de Ação de Graças nos EUA: pressupostos religiosos na construção da identidade nacional norte-americana. Aedos, Rio Grande do Sul, vol 5, n° 13, p 132-147, agosto/ dezembro de 2013.


SISKIND, Janet. The Invention of Thanksgiving: a ritual of America nationality. The Critique of Anthropology, London, Newbury Park and New Delhi, v. 12 (2), p. 167-191


WIBBY, Brian. Fourth Thursday in November marks National Day of Mourning, others celebrate Thanksgiving. Michigan State University Extension, 2019. Disponível em: <https://www.canr.msu.edu/news/fourth-thursday-in-november-marks-national-day-of-mourning-others-celebrate-thanksgiving>. Acesso em: 08/06/2021
















 
 
 

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