O Viajante de Veneza
- Relicário da História

- Oct 13, 2021
- 14 min read
Contextualização
As discussões historiográficas a respeito da presença e da atividade de europeus em território africano, com destaque para os contatos estabelecidos com os povos locais a partir do século XV, revelam a importância de se resgatar os âmbitos relacional e negociador para além da mera noção de submissão dominadora, de modo a não simplificar ou negligenciar as ricas complexidades que se fazem sempre presentes no encontro entre culturas distintas (SOUZA, 2002). Nesse sentido, a pluralidade e a heterogeneidade ligadas às diferentes regiões e sociedades do continente africano interferem diretamente no modo como irão se desenvolver os contatos que estas estabeleceriam com outros lugares e povos do mundo, com destaque para os portugueses, os quais também tiveram que pautar as suas estratégias iniciais de ação na costa Ocidental africana de acordo com as condições sociais, políticas, econômicas e físicas das distintas regiões e comunidades (SOUZA, 2002).
Nesse sentido, o gênero relato de viagem, no decorrer do século XV e a partir das expedições empreendidas sob patrocínio de Portugal no Atlântico, para além de imortalizarem as façanhas dignas de glória dos portugueses do quatrocentos, passam a ser frequentemente utilizados como uma ferramenta de identificação dos costumes, das habitações, das riquezas, das vestimentas, da alimentação e da religião dos povos que habitavam a costa africana, de modo a auxiliar nas pretensões portuguesas de controle dos reinos e de suas jurisdições e a facilitar as pretendidas tratativas diplomáticas e comerciais ao fornecerem as identidades das coisas e das pessoas daquele território (ALMEIDA, 2019). Ademais, historiograficamente, as descrições e interpretações presentes nos relatos e nas crônicas de viagem evidenciam diferentes tipos de olhar que permitem o entendimento do pensamento ligado a como, em determinado contexto, os sujeitos históricos lidam consigo mesmo e com “o outro”, o que diz muito a respeito da afirmação e da construção de suas respectivas identidades (SILVA, 2018).
O comércio realizado pelos portugueses no início do século XV, sobretudo na região do Marrocos, a partir do qual estes entraram em contato com mouros e com habitantes de outras regiões de fora da Europa, foi fundamental para despertar o seu interesse em relação a uma África até então muito pouco conhecida pelos cristãos europeus. O Infante D. Henrique, um dos quatro filhos de D. João I, é considerado o idealizador e mentor da expansão promovida após a tomada de Ceuta, a partir de 1419, e que se estenderia até o ano de sua morte, em 1460, tendo influenciado os projetos expansionistas desenvolvidos por seus sucessores (ALMEIDA, 2019). É necessário destacar também a forte orientação religiosa do expansionismo português nesse momento, ocupando D. Henrique o título de Grão-Mestre da Ordem de Cristo desde 1420, o que revestiu o empreendimento marítimo, para além de seus objetivos práticos, de um caráter missionário de “reconquista” (CORREA, 1999). Nesse sentido, os rumores trazidos pelos palestinos a respeito da verdadeira localização do célebre reino do Preste João, um suposto rei cristão que dominaria um país situado além do Egito, levaram o infante a tentar encontrá-lo através de seu empreendimento, para que, juntos, pudessem combater a expansão do Islão no território africano, o qual já havia se apoderado de grande parte do Norte do continente (SILVA, 2018).
Desse modo, foi formada uma equipe que reunia geógrafos, matemáticos, comerciantes e navegadores, dentre os quais muitos estrangeiros vinham oferecer os seus serviços à coroa portuguesa, a qual, para além do interesse religioso primordial, manifestava o desejo de encontrar e se apoderar do ouro da região da Guiné, buscar por especiarias orientais e capturar nativos (SILVA, 2018). Já os integrantes das embarcações lançadas ao Atlântico levavam consigo uma série de anseios distintos e particulares, mas, no geral, eram motivados pela curiosidade de conhecerem novos lugares, pela possível aquisição de fama e honrarias, pelo comércio de escravos e, sobretudo, pela chance de encontrar o ouro africano. Teve destaque entre esses colaboradores da coroa portuguesa o mercador italiano Alvise Cadamosto (1432-1488), conhecido em Portugal como Luís de Cadamosto, originário da aristocracia veneziana.
Os fatores que levaram Cadamosto a participar do incerto e perigoso empreendimento marítimo português do século XV são de ordem interna e externa. No plano externo, a tomada de Constantinopla em 1453 pelos otomanos teria afetado a prosperidade do comércio de Veneza, tendo o acesso aos produtos orientais se tornado mais difícil com o estabelecimento do bloqueio turco. Quanto ao âmbito pessoal, as dificuldades financeiras enfrentadas por sua família e o perigo da desclassificação social teriam o engajado a se lançar nas viagens ao norte da África atrás da promessa de enriquecimento rápido (CORREA, 2002). Em 1455, Cadamosto, a pedido do Infante D. Henrique, embarca na caravela de Vicente Dias rumo à África Ocidental, mais especificamente à região da Guiné, tendo a expedição, além de realizar escalas em Porto Santo, Madeira e Ilhas Canárias, percorrido a Costa do Senegal, Cabo Verde e a Gâmbia.
Com base no que viu e ouviu durante o tempo que passou na costa africana, Cadamosto, já na Europa, resolve escrever e publicar os seus relatos e de seu amigo Pedro Cintra aproximadamente dez anos após o seu retorno da expedição. Nesse momento, o mercador italiano já havia garantido a sua riqueza proveniente das incursões na África Negra que realizara aos vinte anos, porém, visando compartilhar e eternizar as suas vivências e também garantir a sua ascensão social, Cadamosto escreve seu relato, o qual confere a ele o prestígio que almejava (SILVA, 2018). A quantidade de versões, manuscritos, edições e traduções que a obra do veneziano recebeu na posteridade, sobretudo na Itália e em Portugal, nos revelam a sua importância e relevância histórica. A equipe do Relicário, especificamente, fundamentará a sua análise na descrição da primeira viagem do italiano, contida na versão portuguesa de 1944, intitulada Navegações de Luís de Cadamosto, publicada pelo Instituto para a Alta Cultura, em Lisboa, pelo professor João Martins da Silva Marques.
A questão da distância temporal entre a estadia de Cadamosto na África Ocidental e a escrita de seu relato deve ser levada em consideração pela historiografia devido às limitações que ela pode ter gerado na memória do veneziano, o que interfere diretamente no caráter seletivo e sintético do texto, além de justificar o teor subjetivo e impreciso de alguns elementos e acontecimentos relatados (CORREA, 2002). Ademais, as informações presentes no relato foram obtidas através de dois métodos: pelo testemunho ocular do próprio viajante e através de conversas com terceiros. Logo, além das possíveis falhas em sua memória, o método do “ouvir-dizer”, apesar de ser devidamente indicado por Cadamosto em suas passagens, afeta em diferentes níveis a plausibilidade e a probabilidade dos conteúdos da obra (SILVA, 2018).
Apesar das problemáticas metodológicas envolvendo a fonte, o relato de viagem do italiano Luís de Cadamosto se destaca pelo tom “etnográfico” com que descreve os habitantes das regiões africanas por onde passou. Nesse sentido, a imagem que a obra transmite acerca das populações negras da costa ocidental africana supera a generalidade, tendo Cadamosto se preocupado, ao observar os diferentes grupos com que teve contato, em destacar e comparar questões ligadas à etnia, ao gênero, ao âmbito religioso, à origem social, etc. Partindo de uma perspectiva predominantemente mercantil, também se preocupou em abordar os aspectos físicos da região da Guiné, o trato de escravos e de cavalos, o potencial militar de seus reinos e as riquezas daquelas terras, sem negligenciar a dimensão antropológica em seu relato, como os fatores religiosos e sociais que influenciavam a vestimenta dos negros africanos e o nível de distinção social que as mesmas representavam de acordo com determinadas comunidades, ou o peso que a divisão sexual do trabalho e a poligamia apresentavam em relação à organização socioeconômica da África negra ocidental (CORREA, 2002). Desse modo, as Navegações (1944) constitui um documento rico para os estudos científicos sobre a fauna, flora, geografia, etnografia e antropologia africanas.
Em suma, pode-se depreender que Cadamosto apresenta uma visão fundamentalmente moderna em seu relato, rompendo, no geral, com a imagem medieval depreciativa do negro e com as tradições bíblica e clássica em sua construção imagética do africano. Entretanto, sua visão moderna e antropológica das comunidades africanas não o impedia de realizar a captura e o trato comercial de negros durante suas empreitadas, tendo o comércio de escravos constituído uma alternativa de enriquecimento para o jovem veneziano, sobretudo durante sua primeira viagem, na qual obteve grande êxito financeiro a partir da troca de escravos por cavalos (CORREA, 2002).
Análise da fonte
“Fui eu, Luís de Cadamosto, o primeiro que saí da mui nobre cidade de Veneza, para navegar pelo mar Oceano, fora do Estreito de Gibraltar, para as partes do meio-dia, nas terras dos negros da baixa Etiópia [...]” (CADAMOSTO, 1944, p.03), assim começa a narrativa do viajante veneziano, o qual, sob ordem de Dom Henrique de Portugal segue para explorar as terras africanas junto com o navegador Pedro Sintra. Sua primeira navegação, a qual nos debruçaremos por sua novidade, ocorreu em 1455, decidindo o autor escrever esta narrativa porque em sua viagem ele se deparou com muitas “[...] coisas novas e dignas de notícia, pareceu-me que elas mereciam que lhes consagrasse algum trabalho. [...] pois que, efetivamente, em comparação com os nossos, aqueles que eu vi e ouvi poderiam chamar um outro mundo” (Idem, p.03), dessa forma, suas memórias sob o nome de Navegações de Luís de Cadamosto[1] foram publicadas, em italiano, pela primeira vez em Vicência em 1507.
Sua jornada começa ainda no território europeu, no qual, com seus vinte e dois e anos e preparado para explorar a sua juventude, “[...] bem disposto para sofrer qualquer fadiga, desejoso de ver mundo e coisas que ninguém da nossa nação tinha visto [...]” (Idem, p.08), o nosso viajante decide sair da cidade de Veneza, tomando caminho junto com as galés que se direcionavam até Flandres. Entretanto, antes de atingir seu objetivo, ao efetuar sua parada no Cabo de São Vicente, recebe em a visita de um enviado do Infante dom Henrique, o qual lhes conta sobre o interesse do príncipe em habitar terras ainda não descobertas, comprovando sua fala pelos açúcares, sangue de drago e outras boas coisas que havia trazido com ele. Maravilhado com a aventura e a possibilidade de qualquer um poder se juntar a exploração, Cadamosto decide então abandonar a viagem das galés e seguir em direção a este novo mundo.Ele ainda fará três paradas antes de chegar no Cabo Branco da Etiópia, sendo duas destas em ilhas portuguesas, Porto Santo e a Ilha da Madeira, e uma na parte cristã da Ilha das Canárias, a qual estava ocupada pelos espanhóis.
Poucos dias depois de sair do domínio espanhol, seguindo sempre para o sul, Cadamosto chega em Cabo Branco e segue navegando ao longo da costa africana em direção ao golfo Furna de Arguim, o qual é composto por três ilhas pequenas, arenosas e desabitadas, denominadas pelos portugueses de: Ilha Branca, por ser arenosa; Ilha das Garças, por terem, na primeira vez que lá estiveram, encontrado muitos ovos desta ave; e a Ilha dos Corações. A ilha de Arguim, a qual denominou o golfo, seria, de acordo com o autor, a única que possuiria muita água doce.Neste local, os peixes eram grandes e abundantes, diferentes, muitos bons e alguns parecidos com os que tinham em Veneza, as navegações pelo golfo poderiam ocorrer apenas durante o dia e a favor da corrente, pois a violência de suas águas já havia despedaçado dois navios. Ele também reserva uma parte da narrativa para comentar um pouco sobre deserto que está entre a Etiópia e a Barberia, isto é, o Saara, destacando principalmente a sua extensão equivalente a uma travessia de cinquenta a sessenta dias a cavalo, vindo beber na costa do mar a deixando arenosa, branca e seca, é por esse motivo que os primeiros portugueses nomearam Cabo Branco onde não se encontrava nem ervas nem árvores, somente areia (Idem, p.19). O autor ressalta que do Estreito de Gibraltar, passando pela costa da dita Berberia, até a Etiópia não se encontra povoação alguma dos berberes até o Cabo de Cantim, tendo, somente para lá do Cabo Branco um povo chamado Guaden, os primeiros habitantes desta terra com os quais nosso viajante se deparou.
Uma distância equivalente há seis jornadas de camelos, Cadamosto chega na dita cidade, reduto de árabes maometanos ela não era murada e servia como repouso das caravanas que viam de “outros lugares dos negros”. Lá a alimentação era relativamente diversa, sendo composta por tâmaras e cevada, leite de camelo e outros animais, vacas e cabras (as quais não são muitas por causa da seca, sendo os bovinos menores do que os que possuíam em territórios europeus); encontram-se leões, leopardos e avestruzes, sendo, destes últimos, consumidos os ovos “[...] e são bons.” (Idem, p.20). Cadamosto separará parte de sua narrativa para relatar um pouco sobre o comércio nestas áreas, especialmente tendo em vista o contrato feito pelo Infante, através disto, mostra-nos um pouco sobre as moedas de troca disponíveis neste período. Por exemplo, tendo em vista a seca da região, apresenta-nos que os árabes recebiam dos portugueses “[...] panos, telas, pratas e aliquicés, isto é, túnicas, tapetes e mais coisas, e sobretudo trigo, de que estão sempre famintos; e em troca recebem escravos nefros, que os ditos árabes trazem das terras dos negros, e oiro [ouro] tiber.” (Idem, p.21), os quais conseguiam, similarmente, em trocas comerciais, v.g., “Têm também estes árabes muitos cavalos silvestres, de que fazem comércio; trazem-nos às terras dos negros e vendem-nos aos senhores, que lhes dão em troca escravos; e vendem os ditos cavalos por dez ou vinte cabeças cada um [...]” (Idem). Antes do acordo estabelecido com Portugal, as caravanas portuguesas chegavam armadas na região e, durante a noite, saqueavam aldeias de pescadores e algumas terras árabes e os azenegues – “homens mulatos” que habitam mais adentro do território –, junto com a mercadoria aprisionavam também “quer varões quer fêmeas” destes povos e levavam para serem vendidos como escravos.
Os azenegues viviam já próximo ao Rio de Senegal, sendo este que os separavam do primeiro “reino dos negros”, dessa forma, possuíam hábitos alimentares que, para além das tâmaras, da cevada e do leite de camelo, envolviam milhos e feijões. São homens que comiam pouco, pois sofriam com a fome, sendo notado pelo veneziano que somente com uma escudela de papas de farinha de cevada eram capazes de se manter por um dia inteiro. Estes são classificados pelo autor como “[...] os melhores escravos de todos os negros [...]” (Idem, p. 22). Dentre seus costumes, destaca-se o hábito de sempre trazerem um lenço amarrado na cabeça, o qual tampava o rosto e a boca, pois diziam ser essa coisa feia que “[...] continuamente dá ventosidade e mau hálito e, portanto, deve ter-se coberta e não mostrá-la [...].” (Idem) e a comparavam quase com o ânus. Não possuíam uma hierarquia entre si, mas os mais ricos eram reverenciados e obedecidos, sendo classificados por Cadamosto como “[...] pobres, mentirosos, ladrões mais que ninguém no mundo, e grandes traidores; homens de estatura regular, magros [...] seus cabelos são todos pretos, e untam-nos todos os dias com gordura de peixe, e por isso cheiram muito mal [...]” (Idem, p.23). Contra este povo os portugueses guerrearam durante treze ou quatorze anos, aprisionando muitos deles, quando o Infante efetua o dito acordo, declarou-se a instauração da paz e já não mais se permitia que lhes fizessem mal, esperando-se que eles facilmente se converteriam a fé cristã, pois ainda não estariam bem firmes na fé maometana.
Ao abordar o comércio de sal o viajante trabalha três locais do continente africano: Tagaza, Tombuctu e Melli (isto é, o Império Mali, ou como o autor chama “Império dos negros”). O primeiro destino corresponde ao local de remoção do sal, da qual se tiram grandíssimas quantidades que é levado pelos azenegues e os árabes em caravanas de camelos até Tombuctu, a partir de então seguem para diversas regiões, incluindo Mali. O sal é de grande importância para Império, sendo uma parte usada em períodos de elevadíssimas temperaturas, os quais, de acordo com estes homens, fazem o sangue apodrecer de forma que, se não fosse pelo remédio que produzem com o sal, morreriam (Idem, p.25). O calor da região é descrito como fatal tanto para os árabes e azenegues que vão até lá, quanto para os animais quadrupedes, assinalando que o pasto desta região, pela elevada temperatura, seria nocivo.
O sal que não é consumido pelos habitantes de Mali é dividido em blocos de tamanho suficiente para serem carregados por homens e levado até uma encosta de água doce, nesta deixam os blocos e vão embora; após isto um segundo povo de homens negros chega até o local e deposita uma quantia de ouro em cima de cada bloco e, da mesma forma que vieram, também vão embora; os homens de Mali tem então uma oportunidade de conferir se a quantia é suficiente e, caso seja, apenas pegam o ouro e saem novamente, se não for deixam as moedas e o sal e então as negociações continuariam; por fim, o misterioso povo volta ou para buscar o sal, ou para continuar a troca (colocando mais moedas em cima do bloco), ou para simplesmente pegar a quantia de volta e ir embora sem o sal. Embora admita que a negociação parece ser mentira, nosso viajante diz ter escutado tal relato de pessoas confiáveis, bem como de comerciantes árabes e da região, os quais disseram que esse modo se dá por um antigo costume entre tais povos de não se verem e nem se falarem (Idem, p. 26). Conta-nos, Cadamosto, que o imperador de Mali já tentou uma vez, há muitos anos, capturar um destes homens para saber mais sobre o seu povo, ordenando aos seus homens que se escondessem e, quando eles fossem deixar o ouro, apreendessem um dos homens e assim o fizeram. Entretanto, o homem, não se sabe se por ser mudo ou por desgosto, não falou e nem comeu falecendo depois de quatro dias. O comércio foi interrompido por três anos, entretanto, os habitantes creem ser o local onde estes homens moram muito parecido com o calor de Mali, de forma que não podem sobreviver sem o sal e, assim, logo depois as trocas foram retomadas.
Adentrando mais no continente africano, a caravana se direcionou até o Rio de Senegal que seria responsável por dividir “[...] os negros dos pardos, [...], a terra seca e árida, que é o referido deserto, da terra fértil, que é o país dos negros.” (Idem, p.31), continua ainda a descrição que para além do rio “[...] todos são negríssimos, grandes, grossos e bem formados de corpo, e todo o país é verde, cheio de árvores e fértil; e deste lado há homens mulatos, pequenos, magros, enxutos, e de pequena estatura e o país é estéril e seco.” (Idem, p.32). Chegando no Senegal, Cadamosto dedica-se a relatar como esse povo se organizava passando desde a forma que se elegia o rei deles até a descrição de suas casas e cidades, apresenta-nos que lá os governantes eram eleitos pelos senhores sendo removido de acordo com o poder que possuía e a vontade destes; o reino não era semelhante ao dos cristãos, pois era de gente “selvagem e pobríssima”, que não sabia como construir paredes e, por isso, moravam em casas de palha. “Mantém-se este rei também de roubos, que manda fazer a muitos escravos, quer no país, quer no dos vizinhos. Desses escravos se vale por muitos modos, sobretudo em cultivar certas possessões que lhe são reservadas, e também vendem muitos deles [...]” (Idem, p.33), o responsável por governar não cobrava tributos dos seus, mas recebia destes presentes como cavalos e outros animais, também se fornecia legumes, milho e coisas semelhantes. Aos senhores era permitido ter quantas mulheres quisessem, tendo o rei sempre mais que trinta, bem como tem tantos escravos e escravas que trabalham em suas propriedades. A religião destes é a maometana, porém não eram muito firmes nesta dado o contato que possuem com os azenegues ou árabes que lá chegam.
Antes de seguir para outros territórios, o autor ainda descreverá os hábitos alimentares deles, destacando que, embora tomassem banho várias vezes ao dia, não possuíam limpeza e regramento para se alimentarem; os serviços exercidos pelos homens, os quais eram deveres femininos, tais como fiar, lavar tecidos e outras coisas; o calor que lá fazia em janeiro, era equivalente ao que ocorria em abril na terra dele. Em suas guerras não usavam armadura de roupa, pois, até mesmo pelo calor não o poderiam, tinham um escudo redondo feito de couro de anta que era duro e difícil de penetrar, usavam dardos ligeiros que atiravam de forma muito veloz e portavam arcos que não eram de aço algum.
Sua narrativa é rica em detalhes, o que levantamos aqui incide somente sobre o início de seu relato continuando ainda sobre outros territórios do continente, os costumes, as roupas, as formas de governo e comércio. Convidamos todos os nossos leitores, curiosos de saber mais sobre a visão dos portugueses e os primeiros viajantes através do continente africano, a procurarem o relato deste viajante veneziano. Ao observarmos sobre os aspectos percebidos por Cadamosto, para além de conhecermos sobre estes povos, também compreendemos quais valores eram conhecidos dele, sendo, portanto, uma importante documentação histórica para analisarmos essas sociedades.
[1]. Escolhemos para este texto utilizar a edição bilíngue (português-italiano) feita pelo Prof. Dr. Giuseppe Carlo Rossi, docente de Italiano na Faculdade de Letras de Lisboa, ela está disponível de forma gratuita no site achive.org.

Retrato de Alvide Cadamosto, autor e ano desconhecidos- Créditos da Imagem: The World Biographical
Encyclopedia

Trecho do Primeiro relato de Cadamosto que narra sua chegada de Veneza a Portugal e o começo de sua tutela pelo Infante D. Henrique para as navegações portuguesas em direção a áfrica- Créditos da Imagem: Archive. org
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ALMEIDA, Paula Sposito. Os africanos que mereceram destaque na cronística da expansão portuguesa do Século XV. Revista Em Perspectiva [On Line]. 2019, v. 5, n. 1. 2019.
CADAMOSTO, Luís de. Navegações de Luís de Cadamosto. Texto em italiano e tradução portuguesa por Dr. Giuseppe Carlo Rossi. Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1944.
CORREA, Sílvio Marcus de Souza. A imagem do negro no relato de viagem de Alvise Cadamosto (1455-1456). POLITEIA: Hist. e Soc. Vitória da Conquista v. 2 n. 1 p. 99-129 2002.
SILVA, Cristiane de Ávila et al. O olhar do nauta da expansão do século XV: a alteridade na representação do africano de cor de pele preta na obra cadamostiana. 2018. Dissertação (Mestrado) – Curso de História, Universidade Federal de Alfenas, Minas Gerais, 2018.
SOUZA, Marina de Mello. “Povos em Contato: comércio, poder e identidade”. In: _____. Reis Negros no Brasil Escravista: história da festa de coroação de Rei do Congo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, p. 97-135.




Comments