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O Príncipe dos Viajantes: Abdalla Ibn Battuta pela África

  • Writer: Relicário da História
    Relicário da História
  • Oct 6, 2021
  • 10 min read

Contextualização

Entre o final do século XIII e fins do XIV, período que compreende o momento de produção do relato de viagem de Ibn Battuta, testemunha-se em parte do continente africano a difusão do domínio islâmico, os muçulmanos prestando grandes contribuições às ciências e à filosofia, além de demonstrar suas habilidades comerciais a partir do domínio sobre o comércio mundial daquele período (NIANE, 2010). Seu processo de expansão acontece, já no século VII, a partir do Egito e da Núbia (MACEDO; MARQUES, 2008), avançando, em seguida, para o Sudão oriental – onde encontra resistências – e, a partir do mar Vermelho e do Chifre da África, se espalha pelo interior do continente (NIANE, 2010). Ainda que as fontes relativas a esse período da história da África sejam, principalmente, de origem arqueológica ou provenientes da tradição oral, outros documentos de origens distintas, como os relatos de viagem – que ficaram conhecidos como rihla – também compõem o acervo que possibilita a compreensão de aspectos do passado desse continente, fornecendo informações de caráter institucional, econômico, político e social dos locais que descreviam (MACEDO; MARQUES, 2008).

Abū ʿAbd Allāh Muḥammad ibn ʿAbd Allāh al-Lawātī al-Ṭanjī ibn Baṭṭūṭah (1304-c.1377), também conhecido como Ibn Battuta, foi um marroquino muçulmano que, tendo saído de sua cidade natal em 1325 para realizar a peregrinação sagrada até Meca com o propósito principal de cumprir seu dever religioso, registrou sua viagem na rhila denominada como Um presente para aqueles que contemplam as maravilhas das cidades e as maravilhas de viajar,[1] comumente chamada de Viagens de Ibn Battuta e que lhe conferiu o título de “Príncipe dos Viajantes”. Ainda que tenha passado por diversos países ao longo dos continentes europeu, asiático e africano, por razões que variavam desde de seu dever religioso, sua busca por recompensas ou por empregos a serviço dos governos e, até mesmo, somente em função de sua curiosidade, vale ressaltar sua viagem feita ao território do Mali, durante o período de apogeu do Império enquanto reinava o Mansa Solimão, sucessor do Mansa Musa, que, por sua vez, saíra em peregrinação a Meca quando Battuta começara sua jornada (DUNN, 1994). O Mansa Solimão teve sua corte descrita pelo relato do viajante marroquino (NIANE, 2010), que registrou suas estranhezas acerca de determinados aspectos com que havia se deparado no Mali. No entanto, o reconhecimento do Império como “reino do ouro” provavelmente o incentivara a continuar com sua viagem pela região, visto que o metal consistia em uma importante mercadoria da África no comércio árabe e muçulmano (SILVEIRA, 2019).

Conclui-se, portanto, que Ibn Battuta empreendeu sua jornada em um momento que lhe era bastante favorável, uma vez que os muçulmanos consistiam a maioria dos viajantes no século XIV. Além disso, independentemente da condição financeira de tais indivíduos, sua ligação com a peregrinação sagrada lhe garantia abrigo e descanso em caravanas, mesquitas ou residências (DUNN, 1994). Assim, a figura do viajante que se dirigia a Meca era vista positivamente, esse peregrino sendo até mesmo dispensado de determinadas obrigações que a religião exigia – o jejum do ramadã e, em determinados casos, as orações diárias (MACEDO; MARQUES, 2008). Nesse sentido, tais deslocamentos fizeram com que as rhilas se popularizassem, trazendo informações sobre culturas, organizações, religiões e costumes muitas vezes desconhecidos por aqueles homens que as registravam no decorrer de seus percursos. (MACEDO; MARQUES, 2008).

Tendo em vista a abundância de fontes arqueológicas e, sobretudo, orais, que contam a história do Mali desde o momento de seu surgimento, com o que ficou conhecido como “segunda expansão manden” (NIANE, 2010), a rihla em que Ibn Battuta registra suas jornadas e as diversas regiões por onde passa é considerada como o único relato proveniente de testemunho ocular relativo ao leste africano e ao Império do Mali no século XIV (DUNN, 1994) e, por isso, consiste em um exemplar privilegiado para a compreensão de aspectos daquelas sociedades.[2] Além disso, vale ressaltar que essa fonte pode ser lida a partir de uma perspectiva tanto religiosa – por conta de seu vínculo com a peregrinação – como literária, por seu caráter narrativo (MACEDO; MARQUES, 2008).


Análise da fonte

Em 1325 um jovem deixa a sua terra natal, a cidade de Tanger, e parte em sua sagrada peregrinação até Meca (Hajj), abandona todos os seus entes queridos dispondo-se a começar uma solitária jornada, pelo menos assim ele achava que ela seria. Abdalla Ibn Battuta, ou, como ficou conhecido, o Príncipe dos Viajantes, passa por diversos territórios da Ásia e da África anotando sobre as suas observações e experiências em seu Livro de Viagens (Rihla ou Book of Travels)[3], pelos locais em que passa deixa diversas esposas, numerosos filhos e muitos amigos. O livro, propriamente dito, não foi escrito pelo próprio punho do nosso viajante, mas sim por um de seus colegas, Ibn Juzayy, sendo responsável por transcrever o que Battuta lhe contava. Dentre as suas viagens, embora tenha ocupado pouco tempo das suas aventuras, interessa-nos as duas trajetórias feitas através do continente africano, a saber: a primeira, entre 1330 e 1332, na qual passou pelo Chifre da África, dada a sua expedição pela costa árabe; e, a segunda, realizada entre 1349 e 1353, uma de suas últimas viagens, na qual ele se dirige até Mali, passando pela parte norte do oeste africano. Para além da execução da hajj, suas viagens também eram motivadas pelo simples desejo de conhecer outros territórios em que a maioria dos habitantes eram islâmicos e, portanto, faziam parte da Casa do Islã (House of Islam ou Dar al-Islam).

Passando pela parte Oriental da África, mais precisamente no Chifre da África, a primeira impressão conferida pelo viajante é sobre a cidade de Zaila, na qual se destaca – para além das pessoas serem negras – o viver no deserto. Tal paisagem se estenderia por uma viagem de cinco meses, sendo a principal fonte de alimento e sobrevivência o camelo e as ovelhas, fazendo com que toda a cidade tivesse um fedor de sangue. Em seu relato ele destaca que, por causa dessas condições, ele e seus companheiros de viagem preferiram o desconforto de dormir no barco do que na cidade, adjetivando-a como a mais fedida, desagradável e suja do mundo (DUNN, 1986, p.122.). Saindo do seu ponto de parada, tendo como objetivo chegar em Kilwa, Battuta continua até a cidade de comerciante, identificada como Mogadishu, a qual aparentava ter um tamanho infinito, com muitas ovelhas e muitos camelos, sendo esses últimos mortos aos milhares diariamente. Neste estágio inicial a principal impressão do autor se volta para a dificuldade do deserto e o rico comércio e suas práticas, por exemplo, relata-nos sobre quando um comerciante atracava no porto da cidade era costumeiro que os moradores oferecessem pratos de comidas, buscando conseguir que o recém-chegado escolhesse um para visitar, colocasse-o sobre a sua guarda e vendesse os seus bens. Por serem cidades africanas, o autor nos mostra uma certa surpresa em descobrir que todos falavam árabe, um sinal, aos olhos mais atentos, da expansão que a cultura islâmica possuía neste período.

Sua viagem até o objetivo final, Kilwa, especula-se ter durado em torno de duas semanas, atracando durante uma noite em uma pequena cidade comerciante denominada Mombasa. Sua rota o permite observar uma grande mudança na paisagem, tendo em vista que, ao cruzar a linha do equador, passa a sair do árido deserto para o úmido mangue e os largos rios (Idem, p.126). Como muitas cidades africanas, os produtos principais do comércio na cidade eram o marfim e o ouro, sendo, para esse último graças as minas do Zimbábue, considerada um dos maiores centros comerciais do oriente – status que antes pertencia a Mogadishu. Neste local ele ficará não mais do que algumas semanas, estipula-se que sua chegada ocorreu em março de 1332, considerando que, por causa das moções, a época recomendada para viajar pela costa tropical era entre março e abril, ou somente em setembro. Embora a narrativa sobre a paisagem, isto é, o ambiente árido e as mudanças, bem como os hábitos alimentares, sejam o foco deste breve texto, vale ressaltar que Battuta também efetua diversas descrições políticas sobre os administradores dos locais em que passa, destacando “homens excelentes” ou reis de “piedade e generosidade” (Idem, p.128).

Entre as suas últimas viagens, Abdalla Ibn Battuta decide sair de sua terra natal e descer até o reino de Mali. Localizada na parte Ocidental da África, próxima ao deserto do Saara, a ascensão desta cidade foi grandemente notada dada a sua alta produção de ouro, estimava-se que ela era responsável por quase dois terços de todo o comercio mundial, tal riqueza foi algo que o Mansa Musa, o “rei” deste império, fez questão de exibir em sua hajj em 1324. Seja movido pela sua curiosidade pelo local (argumento lançado por muitos historiadores), seja para tentar cair nas graças do mansa (atitude comumente tomada pelos viajantes a fim de conseguir um favor pessoal em sua corte), interessa-nos que, em 1351, Battuta decide sair da cidade de Fez e atravessar o deserto do Saara a fim de chegar até Mali.

Novamente suas principais notas serão sobre o calor e a aridez, apresentando-nos a rotina das caravanas que se propunham a fazer tal trajeto: primeiramente, esperava-se até o inverno para efetuar uma viagem destas, pois durante o verão ela se apresentaria muito perigosa – neste meio tempo, nosso viajante, já em uma cidade chamada Sijilmasa, aproveita para comprar camelos e engordá-los para o trajeto; em segundo lugar, para sair do local acampado era necessário esperar até o sol abaixar, isto é, apenas quando ele começasse a descer no oeste eles poderiam sair e viajariam o dia inteiro, montando acampamento a noite novamente onde quer que estivessem, “Eles não se desviam disto, pois o sol mata com o calor aqueles que se arriscam a marchar no meio do dia”[4] (Idem, p.297). A próxima cidade estava há 25 dias de distância e nela ficaram durante dez dias, Battuta não se impressionou muito, afirmando que nela não havia nada de bom sobre, sendo Taghaza uma simples e isolada vila, mas com uma enorme importância na região por causa do comércio de sal, sendo notável a quantidade de ouro que era encontrado neste local. Ainda assim, ao contrário das outras cidades que o viajante já havia visto, nela toda a comida, exceto a carne de camelo, tinha que ser trazida de outros locais, os escravos passam dias cavando blocos de sal (o qual era utilizado até para algumas construções) e até a água era salgada.

Seguindo a viagem até a cidade de Walata, começava então a parte mais perigosa da jornada, um longo caminho composto somente pelo deserto de areia e a chuva só chegava uma vez ao ano. Para a sorte do nosso viajante, ela ocorreu próximo à passagem dele, porém os perigos ainda eram grandes, por exemplo ele narra a perda de um dos componentes da caravana, pois “Conflito e troca de insultos tomou lugar entre Ibn Ziri [o perdido] e seu primo materno, chamado Ibn’ Adi, então ele ficou um pouco para trás da caravana e perdeu o caminho [...]”[5] (Idem, p.298). Após alguns dias já na cidade, a qual estava sob o comando de um dos administradores do Mansa Musa, Battuta e seus companheiros retomam o seu trajeto até a capital Mali, passando por diversos locais em que se tinham vilas de fazendeiros, nas quais eles trocavam o sal de Taghaza e outros suprimentos que possuíam por galinhas, arroz, leite e outros alimentos da produção local. Quando em Mali suas impressões não são das melhores, não ficando encantado pela “cidade de ouro”, sendo o seu maior desafeto direcionado ao sultão que não o recebeu propriamente e nem lhe deu presentes de boas-vindas – pelo menos não o dinheiro e os robes de honra que ele tinha em mente. Embora seu único elogio ao governador tenha sido direcionado à devoção à cultura muçulmana e o seu governo justo e estável, destaca-se também as críticas do viajante sobre a mistura que se fazia entre as práticas locais e a religião.

Sua viagem ainda continuará por outros territórios, nos quais, novamente, o calor do deserto se mostra como principal empecilho. Já em seu trajeto de volta para casa, para além da morte do camelo que transportava os seus bens, Battuta também ficará doente por causa do imenso calor necessitando parar em uma cidade chamada Takedda até conseguir se recuperar. Nesta, ao contrário dos outros locais que visitou, apresentava-se uma pequena urbanização por ser uma junção de rotas comerciais, notando o narrador que as pessoas não possuíam outra ocupação a não ser o comercio. Assim que melhora e após fazer os preparativos para a viagem, Battuta segue de volta para Fez.

Para além das descrições ressaltas aqui, as quais foram escolhidas a fim de elaborar uma maior compreensão das paisagens e alguns costumes que existiam neste período na África, bem como as inúmeras cidades que existiam, a narrativa de Battuta também destaca questões políticas e cerimoniais, isto é, quais eram os administradores dos locais; o que fazer quando se chegasse nestes (comumente envolvia prestar o seu respeito e visita ao governador); quantidade de escravos que possuíam, bem como outros detalhes sobre as vestimentas; as religiões praticadas e os usos dos escravos – o próprio narrador recebe um menino de presente e compra, uma garota, em sua parada final antes de retornar para casa. Tais temáticas são elencadas aqui como um convite aos nossos leitores a irem atrás da fonte (ou de artigos sobre ela), bem como despertar a curiosidade para os textos das próximas semanas, os quais focarão em alguns desses aspectos mencionados.

[1] A tradução foi retirada da descrição contida na Biblioteca Digital Mundial. [2] Vale ressaltar que o documento Viagens de Ibn Battuta foi produzido a partir da perspectiva de alguém de fora das sociedades nele registradas. Esse fator deve ser cuidadosamente considerado ao se analisar tal tipo de fonte. [3] Tendo em vista a dificuldade da língua, pois a fonte foi formulada em árabe, a equipe do Relicário da História lançou mão de traduções para o inglês disponíveis para o acesso online na internet. Conjuntamente, dada a não completa familiaridade com as peregrinações muçulmanas, também aproveitamos da biografia de Ibn Battuta publicada por Ross E. Dunn The adventures of Ibn Battuta, a Muslim traveler of the 14 century (1986). Optamos por fazer citações indiretas em alguns trechos e, por isso, disponibilizamos o nome para consulta caso ocorra dúvidas. Também efetuamos todas as traduções de forma livre, as quais poderão ser consultadas nas notas finais. [4] “They do not deviate from it, because the sun kills with its heat those who run the risk of marching at midday.”. [5] “Strife and the exchange of insults had taken place between Ibn Ziri and his maternal cousin, named Ibn’ Adi, so that he fell behind the caravana and lost the way [...]”.





Manuscrito de "As Viagens de Ibn Battuta"








Ibn Battuta durante sua

viagem




Rotas das viagens de Ibn Battuta



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BATTUTA, Ibn. The travels of Ibn Battuta. (A data de publicação e os responsáveis pela tradução desta edição são desconhecidas, dessa forma utilizamos tal referência apenas para consulta das afirmações efetuadas pela obra de Ross Dunn).


DUNN, Ross E. Foreword. In: HAMDUN, Said; KING, Noël (eds.). Ibn Battuta in Black Africa. Princeton: Markus Wiener Publishers, 1994.


_____. The adventures of Ibn Battuta, a Muslim traveler of the 14 century. Berkeley: University of California, 1986


Ibn Battuta in Black Africa. World Literature and Its Times: Profiles of Notable Literary Works and the Historic Events That Influenced Them. Acesso em 04 de out de 2021 https://www.encyclopedia.com/arts/culture-magazines/ibn-battuta-black-africa


MACEDO, José Rivair; MARQUES, Roberta porto. Uma Viagem ao Império do Mali no Século XIV: O Testemunho da Rihla de Ibn Battuta (1352-1353). Ciências e letras, Porto Alegre, n. 44, p. 17-34, jul./dez. 2008.


NIANE, Djibril Tamsir. Capítulo 1: Introdução. In: NIANE, Djibril Tamsir. História geral da África, IV: África do Século XII ao XVI. Brasília: UNESCO, 2010.


_____. Capítulo 6: O Mali e a segunda expansão manden. In: NIANE, Djibril Tamsir. História geral da África, IV: África do Século XII ao XVI. Brasília: UNESCO, 2010.


SILVEIRA, Aline Dias da. Da Expansão Árabe à era Dourada. In: SILVA, Paulo Duarte; NASCIMENTO, Renata Cristina de Sousa. Ensaios de História Medieval: Temas que se renovam. Curitiba: Editora CRV, 2019.

 
 
 

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