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O Destino Manifesto

  • Writer: Relicário da História
    Relicário da História
  • May 19, 2021
  • 7 min read

Contextualização e análise da fonte:



Agora lá está o Sr. Reed, ele é um cavalheiro, também, / Ele sabe muito bem o

que nós mórmons podemos fazer; / Ele sabe que em nosso trabalho somos fiéis e verdadeiros, / E se os meninos mórmons começarem, é provável que terminarão.[1][2]


O excerto supracitado integra a música Echo Canyon, composta e cantada pelos trabalhadores mórmons de Utah, Estados Unidos, durante seu trabalho na finalização da American Transcontinental Railroad (Ferrovia Transcontinental Americana), construída entre os anos de 1868 e 1869 com vista a facilitar o trabalho daqueles que se mudaram para o Oeste do país no empreendimento expansionista a fim de povoar aquela região. Esses mórmons, por sua vez, viram-se obrigados a se mover para o Oeste em função das perseguições religiosas que vinham sofrendo, tendo em vista, com essa movimentação, a criação de um enclave mórmon na região (LOC.GOV).

Ainda que tenha se iniciado com a Independência dos Estados Unidos, o processo de expansão para o Oeste foi intensificado pela a corrida do ouro, entre 1848 e 1860 (SANTOS, 2008), que, tendo levado pessoas a se deslocarem em busca de metais preciosos, exigiu o desenvolvimento de um meio de transporte que facilitasse esse ofício. Assim, a construção de ferrovias foi fator de grande necessidade para quem se locomovia para esses novos territórios, colaborando para o transporte de pessoas e materiais.

Como forma de incentivo à essa expansão, foi criada nos Estados Unidos uma política de terras, a Homestead Act (1862). Resultado da expansão dos mercados e do desenvolvimento do capitalismo, tal política trabalhou para a doação de terras àqueles colonos que desejassem ocupar os territórios do Oeste, desde que fizessem uso do trabalho livre como principal mão-de-obra, condição que fez com que deputados sulistas, antes simpáticos à essa política rural, se voltassem contra ela (COSTA, 1979). Não limitando seu fornecimento de terras a colonos e imigrantes europeus – que viram nesse novo Ato e na imigração para os Estados Unidos uma solução para os problemas que vinham enfrentando na Europa –, o Homestead Act também forneceu terras às companhias ferroviárias, que deveriam usar tais doações para construção de linhas ferroviárias. Tal sistema funcionou para facilitar os deslocamentos ao longo do país, possibilitando viagens mais longas e contribuindo, ainda, para o povoamento naquelas áreas então pouco ocupadas (PINHEIRO, 2020). Com isso, as 8.886 milhas de ferrovia existentes nos Estados Unidos, em 1851, haviam se tornado, em 1861, 31.286 milhas (COSTA, 1979).

O que se pode, observar, portanto, é que a expansão para o Oeste foi resultado de um conjunto de forças, entre elas a industrialização e a imigração, que, por sua vez, veio em resposta à demanda de mão-de-obra nesses territórios recém-ocupados, esses imigrantes – entre eles, os mórmons – contribuindo com compartilhamento de conhecimentos e, também, no trabalho em áreas de inovação (PINHEIRO, 2020).

Retomando ao já foi exposto anteriormente, no decurso do século XIX, os Estados Unidos da América adquiria novas proporções, expandindo-se para territórios imensos e desertos sentido ao Oeste – tal conformação, permitiu verificar que durante o período uma irrisória parcela da população teria residido no centro do continente. Por outro lado, durante a década de 1890 o mapa do país apresentou mudanças significativas decorrentes das dimensões tomadas com a incorporação de novos espaços, resultando em dois territórios, sendo estes Arizona e Omlahoma, sucedendo pela abrangência de dez Estados, saber: Cansas, Nevada, Nebrasca, Colorado, Washington, Montana, Wyoming, Idaho e os dois Dacotas. Com efeito, as novas transformações eram derivadas do que se julgou a ser o “Destino Manifesto” de alguns grupos, centrando seu sentido em torno da Providência Divina[3] (MELANDRI, 2000).

O quadro que esboçamos evidencia a égide de concepções cristãs que foram aplicadas para o norteamento do imaginário da expansão para o Oeste. Identifica-se nisto o discurso de que, por terem sido escolhidos pela Providência Divina, justificar-se-ia o ensinamento de seus valores a outros povos que, de acordo com seu ponto de vista, estariam destituídos de tal relação divina (RAMOS; MIRANDA, 2007). O princípio do Destino Manifesto era marcado por orientações de cunho calvinista, amparando dessa maneira o argumento de que era uma missão guiar povos considerados inferiores até seu esclarecimento, uma vez que estavam imbuídos da graça por Deus. Constata-se, por sua vez, que sua conduta heroica conferiu a aniquilação de comunidades indígenas (COSTA, 2011).

A expressão Destino Manifesto foi empregada por John O’Sullivan que atribuiu, no ensaio Annexation – redigido em 1939, porém publicado em 1945 –, o relato de seu sonho acerca do futuro da América. Neste documento, procurou-se ponderar preceitos de progresso que deviam ser responsáveis diante da figura divina. Todavia, foi apenas na terceira divulgação da expressão que levou à adoção do termo e simbolizar o desejo do país pela expansão em direção ao Oeste (Idem). É nesse sentido que, a atuação dos Mórmons edificou-se como um dos agentes históricos que condensou essas interpretações, compreendendo que suas ações eram fruto da providência divina e, portanto, vislumbrariam de sua benção. (FONSECA, 2007). Os versos abaixo, da canção posta em análise, demonstram isso:


Nosso acampamento está unido, todos nós trabalhamos duro, / E se formos fiéis, ganharemos nossa recompensa; / Nosso líder é sábio e um grande líder, também, / E todas as coisas que ele nos, diz temos orgulho em fazer [...].[4]


Um dos aspectos que sinalizaram o empreendimento da expansão verificou-se com a construção de rede ferroviária. A canção permite apontarmos, através da representação narrativa do trabalho árduo perante a edificação da ferrovia transcontinental, o entusiasmo com sua suposta recompensa celestial:


Viva! Viva! A ferrovia começou! / Três vivas para nosso empreiteiro, seu nome é Brigham Young; / Viva! Viva! Somos animados e alegres, / O tipo certo de meninos para construir a ferrovia [...].[5]


Além disso, a compreensão sobre o progresso associando com uma locomoção mais veloz e que facilite o deslocamento de indivíduos e mercadorias estão contemplados por tal composição popular, a saber:


Certamente devemos viver em uma era muito rápida: / Viajamos de carro de boi e subimos ao palco, / Mas quando todo esse transporte for eliminado, / Viajaremos em vagões a vapor na ferrovia [...].[6]


Trata-se ainda de reconhecer que, como já mencionado, os valores expansionistas carregaram a ideia de superioridade dos colonos brancos. Como destaca a historiadora Priscila Borba da Costa, pode-se resumir a Doutrina do Destino Manifesto por três palavras-chave: virtude, missão e destino. Destarte, os versos seguintes nos indicam a influência desse discernimento:


A grande locomotiva chegará na próxima temporada / Para reunir os santos de casas distantes, / E trazê-los para Utah para aqui ficarem em paz / Enquanto os julgamentos de Deus varrem os perversos [...].[7]


Concluímos que o fator religioso foi indispensável para conduzir um sentimento e mentalidade que apontava o Estados Unidos da América rumo ao progresso e desenvolvimento civilizatório. Desse ponto de vista, a partir daqueles que foram eleitos para a missão divina, compreendeu-se como direito o apoderamento de territórios, construindo um espaço de disputas que implicava na submissão dos nativos, o que gerou, por conseguinte a morte de parcela dessa população que era inversa ao seu ideal civilizador. A então canção popular exposta para a análise nos ofereceu um recorte de narrativa que ao ser problematizada e posta em seu contexto, ofereceu suporte como vestígio, este que condensou determinados preceitos do Destino Manifesto assim como a perspectiva de um grupo – os Mórmons.

[1] Todas as traduções foram feitas de forma livre pela equipe do Relicário da História responsável pela produção do texto. [2] “Now there's Mr. Reed, he's a gentleman, too, / He knows very well what we Mormons can do; / He knows in our work we are faithful and true / And if Mormon boys start it, it's bound to go through.” [3] Deve-se pontuar que pelo contato entre nativos americanos e homens brancos desencadearam-se conflitos. [4] “Our camp is united, we all labor hard, / And if we are faithful, we'll gain our reward; / Our leader is wise and a great leader, too, / And all things that he tells us, we are right glad to do.” [5] “Hurray! Hurrah! The railroad's begun, / Three cheers for our contractor, his name's Brigham Young; / Hurray! Hurrah! We're light-hearted and gay, / Just the right kind of boys to build the railway.” [6] “We surely must live in a very fast age: / We've traveled by ox-cart and then took the stage, / But when such conveyance is all done away, / We'll travel in steam-cars upon the railway.” [7] “The great locomotive next season will come / To gather the Saints from their far-distant home, / And bring them to Utah in peace here to stay / While the judgments of God sweep the wicked away.”









Letra da música "Echo Canyon"

















Across the Continent: "Westward the Course of Empire Takes it's Way", 1868










"East and West shaking hands at laying last rail"







Fonte:

HILTON, L.M. Echo Canyon. Library of Congress, 1952. Disponível em: < https://www.loc.gov/item/ihas.200197140>. Acesso em 18 de maio de 2021.


Bibliografia:

COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1979.


COSTA, Priscila Borba da. O Destino Manifesto do Povo Estadunidense: uma análise dos elementos delineadores do sentimento religioso voltado à expansão territorial. Congresso Internacional de História, 2011.


EMRICH, Duncan (ed.). Songs os the Mormons and Songs of the West. Washington: Library of Congress, 1952.


FONSECA, Carlos da. “Deus está do nosso lado”: expecionalismo e religião nos EUA. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, vol.24, n.1, Jan/June, 2007.


MELANDRI, Pierre. O “Desígnio Evidente” e industrialização/Transformação sociais e Política de Negócios. In:_____. História dos Estados Unidos desde 1865. Lisboa: Edições 70, 2000, p. 22 – 66.


O impacto de ferrovia transcontinental. American Experience. Disponível em: < https://www.pbs.org/wgbh/americanexperience/features/tcrr-impact-transcontinental-railroad/>. Acesso em: 18 de mai. de 2021.


PINHEIRO, Marcos Sorrilha. Reconstrução, Expansão e Industrialização #Aula5. Youtube, 21 de março de 2020. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=yRU8PFwzh40>. Acesso em 18 de maio de 2021.


RAMOS, André Luiz Araújo; MIRANDA, Augusto Ridson de Araújo Miranda. Religião civil, Destino Manifesto e política expansionista estadunidense. Ameríndia, vol.4, n.2, p. 1-17, 2007.


SANTOS, Eloína Prati dos. A Riqueza Cultural e Mitológica do Oeste Estadunidense. In: Revista Literatura em Debate, v. 2, n. 3, 2008.


Songs of Immigraton and Migration. In: The Library of Congress Celebrates the Songs of America. Disponível em: < https://www.loc.gov/collections/songs-of-america/articles-and-essays/historical-topics/songs-of-immigration-and-migration/#text5> Acesso em 19 de maio de 2021.

 
 
 

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