Mark Twain e a Saudação ao século XX
- Relicário da História

- Jun 22, 2021
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Contextualização
No decurso dos séculos XVIII e XIX, os Estados Unidos da América amplia sua posição no sistema internacional, ultrapassando a economia das nações do continente europeu. Por sua vez, tal alcance não representava ainda na prática uma ação internacional significativa, sinalizando apenas a partir dos anos 1890 transformações estratégicas, políticas e econômicas que viabilizaram uma atuação em outros países. O resultado desse contexto histórico seria a passagem de uma política externa que acompanhava tão somente um projeto nacional para transformar-se de fato num mecanismo que possibilitava a ascensão do poder norte-americano. Assim, líderes como William McKinley e Theodore Roosevelt contemplaram, a partir da reestruturação do Poder Executivo, modificações do sistema de política externa do país (PECEQUILO, 2005).
Nesse sentido, destaca-se o papel que a Doutrina Monroe desempenhou a partir do envolvimento estadunidense em intervenções à determinados países, simultaneamente, calcado na noção de defesa. Ainda que o presidente James Monroe, apresentando em 1823 no Congresso dos Estados Unidos a doutrina, coloque-a como uma tentativa de manter a paz e segurança no território, o cenário estava direcionado para a tendência de afirmar sua separação, buscando-se uma independência política em relação à Europa – dos quais recebeu pouca atenção. Por outro lado, ela incorpora uma articulação externa e adquire novas análises com os subsequentes governos, sendo comum autores atribuírem ao Corolário Roosevelt a intenção de interferir nos conflitos entre os países da América Central e do Sul, com o objetivo de preservar a economia e a democracia (TEIXEIRA, 2014).
Em linhas gerais, no final do século XIX e início do XX, episódios como a Guerra Hispano-Americana (1898), a política das portas abertas (1898-1899), suscitaram discursos que supostamente apontava seu envolvimento para expulsar os colonizadores e atestar a autonomia dessas nações. Assim, a presença dos Estados Unidos na Guerra Hispano-Americano pretendia, de acordo com sua retórica, garantir a Independência de Cuba, edificando a imagem de que os territórios americanos deveriam ser livres, consistindo sua liberdade em decidir sua forma de governo e evitar o risco da recolonização. Em contrapartida, na prática sua ação demonstrava a intensificação da hegemonia estadunidense, a manutenção de áreas de interesse, a isenção de poderes extracontinentais do hemisfério e a conservação da estabilidade regional. Todos esses aspectos ilustravam o desejo de excluir a influência espanhola na região do Caribe para não prejudicar seus proveitos econômicos, os quais, por sua vez, culminaram de fato na independência cubana. Destarte, a influência estadunidense intensifica-se com o Corolário Roosevelt e a Doutrina Monroe, ficando as administrações de Cuba sob o poder dos Estados Unidos (PECEQUILO, 2005). Além disso, com o advento da Guerra Hispano-Americana, o país insere-se como uma potência propensa a defender seus interesses internacionalmente, capaz de utilizar-se da força para isso.
Análise da Fonte
Samuel Clemens, mais conhecido pelo pseudônimo Mark Twain (1835-1910), para além de ter sido um famoso escritor americano, consagrado por obras como As Aventuras de Tom Sayer ou A Vida No Mississipi, possuiu uma grande proeminência dentro dos movimentos anti-imperialistas, especialmente após o início da guerra Hispano-Americana e o envolvimento estadunidense nela. Fervoroso opositor da intervenção dessa nação nos assuntos de outros países, Twain juntou-se ao grupo Liga Anti-imperialista (Anti-imperialist League), formada em 1898 com o objetivo de lutar contra a possível anexação das Filipinas. Dentre seus argumentos listavam-se desde motivos econômicos aos morais, acreditando que a aquisição de colônias além-mar subverteria os ideais e as instituições americanas – o grupo começou a decair logo após a assinatura do Tratado de Paris (1898) e eventualmente desapareceu. Dessa forma, tendo em vista o envolvimento do autor na literatura e em publicações jornalísticas, seu descontentamento sobre esses conflitos não passou despercebido, sendo seus textos publicados nacionalmente.
Um importante discurso, embora curto, e objeto de nossa análise chama-se Um Discurso de Saudação do Século Dezenove para o Vinte (A Salutation Speech from the Nineteenth to the Twentieth Century) publicado em 29 de dezembro de 1900 no Mineappolis Journal. Originalmente escrito para a Cruz Vermelha (Red Cross) o texto seria utilizado em uma campanha feita pela instituição que contaria com escritos de outras personalidades famosas do período, Mark Twain, percebendo o objetivo sobre a propaganda para as campanhas dos aliados na China e os demais nomes com os quais o seu estaria relacionado, requisita o retorno de sua “saudação” e a retirada de sua condição de colaborador. O descontentamento com a Cruz Vermelha foi amplamente divulgado e uma cópia do manuscrito publicada no dito jornal, neste o autor coloca:
Eu trago para você a imponente matrona chamada Cristandade, retornando suja, manchada e desonrada, dos assaltos piratas em Kiaochow, Manchuria, África do Sul e da Filipinas, com sua alma cheia de maldade, seu bolso cheio de sangue, e sua boca cheia de piedosas hipocrisias. Dê a ela sabão e toalha, mas esconda os espelhos.[1]
Depois, a esse texto, o autor adicionou as seguintes linhas “Dê a ela o espelho; pode libertá-la do erro. / Quando ela se ver como os outros a veem.”[2]. Podemos observar a repudia que ele possuía em relação aos atos cometidos pelos Estados Unidos nesses locais, tendo em vista os conflitos estabelecidos entre seus militares e os moradores desses territórios, bem como o seu descontentamento com o argumento da piedade cristã sobre tais interferências. Dentro do arquivo do Library of Congress temos também a apresentação de outros discursos feitos pelo autor, os quais, nesta esteira, reforçam a sua insatisfação com os militares e a premissa de defesa da liberdade. Por exemplo, este foi publicado no New York Herald em 15 de outubro de 1900:
Eu queria que a águia americana fosse gritando ao Pacífico. Ela parece cansada e domada para se contentar com suas montanhas rochosas. Eu me perguntava, por que não abrir asas sobre as Filipinas? E eu pensei que seria realmente algo muito bom de se fazer. Eu disse a mim mesmo, aqui estão pessoas que sofreram durante três séculos. Nós podemos fazê-las livres por si mesmas, dar a eles um governo e um país delas, colocar uma miniatura da constituição americana à tona no Pacífico, começar uma nova república para tomar o seu lugar junto as nações livres do mundo. [...] Mas eu pensei um pouco mais, e desde então, eu li cuidadosamente o tratado de Paris, e eu vi que eles não intendem a liberdade, mas subjugar as pessoas da Filipinas. Nós fomos lá para conquistar, não redimir...[3]
Ele conclui que, portanto, sua posição anti-imperialista era em nome da liberdade, e que seus deveres e prazeres deveriam ser em fazer esses povos livres deixando-os lidar com suas próprias questões do seu próprio jeito. Ele continuará criticando as medidas diplomáticas e as políticas tomadas Estados Unidos da América e, até após a sua morte, seu nome continua dentro do movimento anti-imperialista, saindo em 1906 no Boston Herald um ensaio de sua autoria sobre a Primeira Batalha de Bud Dajo (First Battle of Bud Dajo) nas Filipinas, no qual ele tece suas críticas ao exército americano:
O General Wood estava presente e olhando. Sua ordem foi, “Matem ou capturem esses selvagens”. Aparentemente nosso pequeno exército considerou que o “ou” lhes dava autorização para matar ou capturar de acordo com seus gostos, e seus gostos permaneceram o que tinha sido por oito anos em nosso exército - o gosto de açougueiros cristãos.[4]
Por fim, ressaltamos sua publicação de 1901, na qual, tendo em vista as mortes deixadas pelos conflitos estabelecidos, o autor declara que a bandeira estaria a partir de então manchada para o mundo:
[...] nós nos voltamos contra os fracos e sem amigos que confiavam em nós; nós estampamos a nossa justa e inteligente e bem ordenada república; nós apunhalamos um aliado pelas costas e batemos no rosto do convidado; nós compramos uma Sombra de um inimigo que não a tinha para vender; nós roubamos de um amigo confiável a sua terra e a sua liberdade; nós convidamos limpos homens jovens para arcar um mosquete descreditado e fazer o trabalho de um bandido sob uma bandeira que os bandidos se acostumaram a temer, a não seguir; nós debandamos a honra da América e escurecemos a sua face diante do mundo...[5]
Sua reflexão conclui apresentando que, sobre uma bandeira para a Filipinas, eles poderiam prover uma especial seguindo o que seu Estado fez, ela pode ser igualzinha a dele, mas as listras brancas deveriam ser pintadas de preto e as letras substituídas por caveiras com ossos cruzados.
Apesar de apresentar apenas uma perspectiva contrária ao movimento e as políticas colocadas pelos Estados Unidos durante a passagem do século XIX para o XX, a visão crítica de Samuel Clemens permanece como importante dentro da história americana, bem como a sua proeminência no campo literário e jornalístico, e é revisitada continuamente quando abordamos as intervenções estadunidenses. Seus textos mostram-nos pontos importantes de discordância entre as medidas tomadas neste período, os quais foram amplamente discutidos dentro do âmbito político, permitindo-nos, portanto, observar um pouco mais sobre as discordâncias e os descontentamentos para com o argumento de libertação destes países.
[1] “I bring you the stately matron named Christendom, returning bedraggled, besmirched, and dishonored, from pirate raids in Kiaochow, Manchuria, South Africa, and the Philippines, with her soul full of meanness, her pocket full of boodle, and her mouth full of pious hypocrisies. Give her soap and towel, but hide the looking glass.”.
[2] “Give her the glass; it may from error free her. / When she shall see herself as others see her.”.
[3]“I wanted the American eagle to go screaming in to the Pacific. It seemed tiresome and tame for it to content itself with he Rockies. Why not spread its wings over the Phillippines, I asked myself? And I thought it would be a real good thing to do. I said to myself, here are a people who have suffered for three centuries. We can make them as free as ourselves, give them a government and country of their own, put a miniature of the American constitution afloat in the Pacific, start a brand new republic to take its place among the free nations of the world. [...] But I have thought some more, since then, and I have read carefully the treaty of Paris, and I have seen that we do not intend to free, but to subjugate the people of the Phillippines. We have gone there to conquer, not to redeem...”.
[4] “General Wood was present and looking on. His order had been, "Kill or capture those savages." Apparently our little army considered that the "or" left them authorized to kill or capture according to taste, and that their taste had remained what it had been for eight years in our army out there - the taste of Christian butchers.”.
[5] “[...] we have turned against the weak and the friendless who trusted us; we have stamped out a just and intelligent and well-ordered republic; we have stabbed an ally in the back and slapped the face of a guest; we have bought a Shadow from an enemy that hadn't it to sell; we have robbed a trusting friend of his land and his liberty; we have invited clean young men to shoulder a discredited musket and do bandit's work under a flag which bandits have been accustomed to fear, not to follow; we have debauched America's honor and blackened her face before the world...”.

Capa de panfleto distribuído pela Liga Anti-imperialista (Anti-Imperialist League) em uma de suas reuniões ocorridas em 20 de abril de 1899 em Chicago.


Facsimile correspondente ao manuscrito do texto Um Discurso de Saudação do Século Dezenove para o Vinte (A Salutation Speech from the Nineteenth to the Twentieth Century) publicado em dezembro de 1900.
'Mark Twain' o melhor humorista da América, de 1885, ilustração de Samuel Clemens se apresentando para uma audiência, feita por Joseph Keppler e litografada por Mayer, Merkel & Ottman em New York.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Fontes
TWAIN, Mark. A Salutation Speech from de Nineteenth to the Twentieth Century. Disponível em < http://www.twainquotes.com/Salutation.html > acesso em 21 de junho de 2021.
LIBRARY OF CONGRESS. Mark Twain. 22 de junho de 2011. Disponível em < https://www.loc.gov/rr/hispanic/1898/twain.html > acesso em 21 de junho de 2021.
Bibliografia
PECEQUILO, Cristina Soreanu. A política externa dos Estados Unidos. 2 ed. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2005, p. 75-104.
TEIXEIRA, Carlos Gustavo Poggio. Uma política para o continente – reinterpretando a Doutrina Monroe. Rev. Bras. Polít. Int, p. 115-132, 2014




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