Estudo da História da África
- Relicário da História

- Sep 29, 2021
- 8 min read
Como surgiu e o porquê de se fazer uma história da África
“A África tem uma história.” Foram com essas palavras que Joseph Ki-Zerbo, político e historiador africano, iniciou a introdução do primeiro livro da coleção “História Geral da África”, um conjunto de obras desenvolvidas desde a segunda metade do século XX que assumiu o desafio de reescrever a história até então mal compreendida do continente africano. Desde a fundação da historiografia moderna no século XVIII e das teorias sociais no século XIX, a história e as demais ciências humanas passaram a se apoiar em paradigmas e conceitos ideológicos eurocêntricos, que alimentavam uma crença generalizada de que o modelo de desenvolvimento dos povos europeus seria o nível mais elevado de civilização a ser alcançado (BARBOSA, 2008).
Baseando-se no marco da escrita e nas teorias evolucionistas, a historiografia, até o início do século XX, atribuiria às sociedades africanas um caráter a-histórico, pois sendo muitas vezes o legado dessas últimas apoiado na tradição oral, em objetos materiais, entre outros suportes diferentes da escrita, não seria possível construir uma memória concisa e linear desses povos. (BARBOSA, 2008). Foi com o abalo dos valores europeus provocado pelas guerras mundiais e a renovação crítica das ciências humanas e sociais no século XX que a história da África se desenvolveria, se consolidando com os movimentos de libertação dos países africanos, que buscariam reconstruir suas histórias e se emanciparem de suas antigas metrópoles. Para além desses acontecimentos, o surgimento da Escola dos Annales, com sua nova forma de conceber a história pela interdisciplinaridade, problematização e totalização também seria outro ponto chave para que caminhos metodológicos inéditos de apreensão da história fossem desenvolvidos e abrissem a possibilidade de outras sociedades terem sua história representada.
Sucedia-se, portanto, ao longo do século XX, uma forte tendência de questionamento sobre as balizas que norteavam a produção do conhecimento histórico, principalmente do que se escrevia a respeito das sociedades não europeias, que até então eram vistas e abordadas pelo seu exotismo. Surgiriam então, a partir da metade do século XX, diversos estudos sobre a história da África, inclusive obras feitas por africanos, como “Campanhas do Senegal” de Abdoulaye Ly e “Sudjata ou épico mandinga” de Djibril Tamsir Niane. (BARBOSA, 2008)
Ao apoiar a escrita e a revisão da história do continente africano, não se pretendia criar uma história revanchista (KI-ZERBO, 2010), mas uma memória que poderia ser escrita pelas próprias pessoas que as viveram e as detinham: os africanos. Além de readquirir o protagonismo da sua própria história, outro motivo que justificaria a produção de uma nova história da África seria a inadequação dos modelos estrangeiros em relação ao tipo de legado ou memória construída pelas sociedades africanas. Era importante ressaltar que a aplicação de um método historiográfico não condizente ao tipo de memória construído pelos nativos do continente faria com que essa última se tornasse refém, novamente, dos etnocentrismos, como o eurocentrismo.
Como estudar a História da África?
Tendo em vista que a História da África não configura algo que possa ser trabalhado de forma homogênea, em virtude de sua imensa variedade de povos, culturas e organizações políticas e econômicas, evidencia-se a necessidade de se “[...] evitar tanto a singularização excessiva da África quanto a tendência a alinha‑la demasiadamente segundo normas estrangeiras” (KI-ZERBO, 2010). Nesse sentido, o estudo da história desse continente não deve ser pautado nas mesmas metodologias dispensadas ao das demais partes do globo, mas na apreensão adequada das realidades e particularidades de cada povo ou localidade estudado ao longo dos territórios africanos, o que possibilita a aquisição de conhecimentos precisos sobre cada um destes (KI-ZERBO, 2010).
Não somente os povos que compõe o continente africano são diversos, também são múltiplas as fontes disponíveis para seu estudo, podendo ser extraídas, entre outros meios, da tradição oral, da arqueologia, da paleontologia, da geografia física e, até mesmo de documentos escritos chineses, hindus e europeus (OBENGA, 2010). No que concerne à documentação escrita – sejam crônicas ou arquivísticas –, ainda que determinadas regiões não dispusessem desse tipo de documentação (DJAIT, 2010), vale ressaltar que até o século XV sua proveniência era principalmente árabe e, em função de questões políticas e culturais islâmicas (HRBEK, 2010), ainda no quatrocentos, as fontes escritas passaram a ser majoritariamente originárias de países europeus – naquele momento expandindo seu poderio ao longo do continente africano (DJAIT, 2010).
Para além da documentação escrita, a tradição oral consiste em outro tipo de fonte de grande importância para o estudo da história da África, descrita por Joseph Ki-Zerbo como “um verdadeiro museu vivo”, guardada pelos chamados “ancestrais em potencial” (KI-ZERBO, 2010). Ainda que carregada de autenticidade, a tradição oral deve ser estudada cautelosamente de modo a se garantir a apreensão precisa dos fatos. Por outro lado, em paralelo com a chamada palavra histórica, desenvolve-se como parte da tradição oral o discurso épico, que abarca elementos míticos e contribui para a construção da personalidade do grupo em que se insere. Esse discurso, no entanto, aparece pontuado por anacronismos que confundem a compreensão cronológica dos fatos, como, por exemplo, quando
Por vezes, um dinasta excepcional e carismático polariza sobre si os feitos mais notáveis de seus predecessores e sucessores que, assim, são literalmente eclipsados. É o que acontece com certos dinastas de Ruanda, como Da Monzon, rei de Segu (início do século XIX), a quem os griots atribuem toda a grande conquista desse reino (KI-ZERBO, 2010, XL).
Apesar da filtragem que deve ser feita com relação aos conteúdos apreendidos da tradição oral, essa modalidade de fonte mostra sua relevância devido ao peso atribuído pelos africanos à palavra. A tradição oral é, portanto, reveladora dos valores e da identidade de um povo e, comparada com vestígios escritos ou arqueológicos, já é comprovada como válida (KI-ZERBO, 2010).
A arqueologia, por sua vez, configura-se como uma contribuinte significativa para a história africana, especialmente na ausência de vestígios orais ou escritos, e tanto os objetos que a compõe – como produções de cerâmica, ferro, tecelagem, entre outros –, quanto à forma como estes foram produzidos, representam fatores que fornecem indícios acerca das civilizações que integraram (KI-ZERBO, 2010). Muitas vezes, no entanto, essa ciência deve se aliar a outras disciplinas para que seu pesquisador seja capaz de obter maior quantidade de informações em seu estudo, partindo de uma nova perspectiva (ISKANDER, 2010), como ao fazer uso da arqueologia aliando-a aos métodos paleobotânicos para desenvolver teorias relativas à agricultura durante o neolítico (OBENGA, 2010).
A História da África também pode ser estudada através da linguística, disciplina autônoma que, analisada minuciosamente, permite “[...] fazer extrapolações retroativas, operação que muitas vezes se torna difícil pela falta de conhecimento histórico profundo dessas línguas” (KI-ZERBO, 2010). O estudo da linguística contribui para a compreensão da forma como se configuraram as rotas migratórias pelo continente e do modo como as culturas disseminaram aspectos que lhes eram característicos – materiais e espirituais. Ao mesmo tempo, esse estudo deve ser desenvolvido cuidadosamente, esquivando-se de abordagens etnocentristas que antes marcaram a linguística africana e que atribuem a esse fator linguístico caráter evolutivo (KI-ZERBO, 2010).
Finalmente, vale destacar quatro princípios norteadores elencados por Ki-Zerbo no que concerne a pesquisa da História da África, a saber: a) a interdisciplinaridade, que se justifica pelas vantagens obtidas ao se aliar duas ou mais disciplinas na análise dos vestígios para o estudo da História da África, ou mesmo pelo uso de mais de uma modalidade de fonte para se ter ampla apreensão de determinado fato; b) a exigência de que essa história seja vista do interior, de dentro do continente africano, desprendida de preceitos estrangeiros mas, ao mesmo tempo, conectada às demais partes do mundo a partir de análises que evidenciem as relações e influências multilaterais em vigor e que permitem a recuperação de sua “[...] visão interior de identidade, de autenticidade, de conscientização [...]” (KI-ZERBO, 2010); c) o fato de essa história ser obrigatoriamente “a dos povos africanos em seu conjunto”, uma história dos povos desse continente que, na maior parte do tempo, não foram restringidos pelas fronteiras impostas pela colonização; d) a necessidade de evitar que essa história seja excessivamente factual, tratando especialmente das civilização, instituições e estruturas, de modo que não enfatize influências e fatores externos, dando enfoque a aspectos próprios das nações africanas.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss, discorrendo acerca da impossibilidade de se conceber a existência de uma civilização mundial, argumenta que uma civilização se constrói a partir da “[...] coexistência de culturas que oferecem entre si a máxima diversidade [...]” (LÉVI-STRAUSS, 1993). Nesse sentido, o estudo da História da África deve ser desenvolvido considerando os diversos países, regiões e povos que integram o continente, essa heterogeneidade não devendo ser ofuscada pelo que a escritora Chimamanda Ngozi Adichie caracterizou como “história única”, que, por sua vez, estereotipa e tira de um grupo a sua dignidade. Dessa forma, a metodologia para o estudo da História da África deve englobar a utilização das distintas fontes que caracterizam cada localidade do continente e, ainda, o intercruzamento entre estas, para se obter um panorama amplo daquilo que vem sendo estudado, tudo isso devendo ser desencadeado a partir de uma investigação crítica dos documentos elencados para a análise.
Conclui-se, portanto, que a busca por novas formas de se pesquisar sobre a História da África trouxe consigo a demanda pelo desenvolvimento de metodologias históricas inéditas[1] e que melhor se adequem aos tipos de vestígios documentais característicos das populações e sociedades que integram o continente. Assim, novos questionamentos emergem a partir da divulgação de novas fontes e, simultaneamente, na medida em que “[...] mais fundamentos da história africana se tornam conhecidos, mais essa história se diversifica e se constrói de diferentes formas, de modo inesperado” (OBENGA, 2010).
A equipe do Relicário da História ressalta que, por motivos de maior facilidade de acesso e melhor compreensão pelas integrantes do projeto, parte da documentação a ser trabalhada na temática de História da África, sobretudo no que concerne ao período medieval, será originária de Portugal. No entanto, reforçamos que o continente conta com inúmeros vestígios históricos, arqueológicos, geológicos, entre outros, de igual importância e que também são merecedores de atenção. Agradecemos pela leitura e esperamos que, no decorrer das semanas, nosso trabalho motive a curiosidade dos leitores de conhecer novos aspectos do passado africano.
[1] Vale ressaltar que a antropologia e a etnologia aparecem aliadas às fontes históricas provenientes da África como partes integrantes de seus métodos de análise. No entanto, esses dois campos do saber devem ser usados com o cuidado de se colocar de lado preceitos etnocêntricos e pressupostos evolutivos.

Seated Male Figure (última metade do século XIX). - Créditos da imagem: The Met

Cena de costa ocidental da África, com uma família africana sendo separada por comerciantes de escravos.- Créditos da imagem: The British Museum

Denunciações do Reino do Congo e Angola (século XVII).- Créditos da Imagem: Arquivo Nacional da Torre do Tombo

"Christine" (1971), pintura de Ben Enwonwu. - Créditos da Imagem: New York Times
Bibliografia:
BARBOSA, Muryatan Santana. Eurocentrismo, História e História da África. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana. São Paulo, n° 1, p. 46-63, junho, 2008.
DJAIT, H. As fontes escritas anteriores ao século XV. In: KI-ZERBO, Joseph. História Geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010.
HRBEK, I. As fontes escritas a partir do século XV. In: KI-ZERBO, Joseph. História Geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010.
ISKANDER, Z. A Arqueologia da África e suas técnicas – Processos de datação. In: KI-ZERBO, Joseph. História Geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010.
KI-ZERBO, Joseph. Introdução Geral. In: KI-ZERBO, Joseph. História Geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Raça e História. In: LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural Dois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993.
OBENGA, T. Fontes e técnicas específicas da História da África – Panorama Geral. In: KI-ZERBO, Joseph. História Geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010.
TED. Chimamanda Adichie: o perigo de uma única história. Youtube, 7 de outubro de 2009. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=D9Ihs241zeg>.




Comments