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Common Sense e a Revolução Americana

  • Writer: Relicário da História
    Relicário da História
  • Apr 27, 2021
  • 7 min read

Contextualização


Eu ouvi a afirmação de alguns que, como a América floresceu sob sua antiga conexão com a Grã-Bretanha, a mesma conexão é necessária para sua felicidade futura e sempre terá o mesmo efeito. [...], pois respondo categoricamente que a América teria florescido tanto, e provavelmente muito mais, se nenhuma potência tivesse qualquer coisa com ela (PAINE, 1792, p.17)[1][2]


Foram com essas palavras que o político britânico e intelectual Thomas Paine (1737-1809) se dirigiu às colônias da América por meio de seu folheto Common Sense; Addressed to the Inhabitants of America, on the following interenting subjects, publicado em 1776, depois de sua chegada ao continente em 1774 pela recomendação de Benjamin Franklin. Desde seu engajamento na Pensilvânia Magazine como editor, Paine foi autor de vários escritos, tal como este panfleto, que se tornou uma das suas publicações mais lidas pela América do Norte por conta de seu teor crítico e apoiador à causa independentista das colônias.

Sendo formadas por indivíduos majoritariamente de tradição puritana, a qual valorizava o ensino e a prática da leitura e da escrita (KARNAL; PURDY; FERNANDES; MORAIS, 2007), as trezes colônias americanas se tornaram grandes receptoras e consumidoras de diversos discursos e correntes de pensamento. Tais fatores foram fundamentais para que a América, nas últimas décadas do século XVIII, construísse seu discurso de independência, e se posicionasse contra os impostos cobrados pela Coroa britânica. Dentre esses tributos vale destacar os que já existiam na Inglaterra, como o Ato de navegação, e os novos impostos direcionados às colônias, tais como a Lei do açúcar (1733), a Lei do selo (1765) e os atos de Townshend (1767-1768) (COGLIANO, 2016). Mais do que simples taxas, os tributos cobrados pela Coroa Britânica não só afetavam economicamente as treze colônias, mas feriam, principalmente, seu direito ao autogoverno e seus costumes próprios.

Foi diante dessas atribulações que se formaria então, em 1775, o Congresso da Filadélfia, reunião que agrupou doze dos treze delegados das colônias americanas com o intuito de pedir o fim dos impostos diretamente ao rei George III. No entanto, esse objetivo mudaria após a publicação do Common Sense, panfleto que traria as diversas reflexões feitas por Thomas Paine sobre os últimos conflitos vividos pelos colonos, como a invasão britânica a Lexington em Massachusetts, em abril de 1775. Para além de uma análise crítica da relação entre a América e a Grã-Bretanha, o texto de Paine culminou no desejo de independência das treze colônias.


Analisando a fonte


Para dizer que os comuns são vigiantes do rei, pressupõe duas coisas: /Primeiro. Que o rei não deve ser confiado sem ser cuidado, ou, em outras palavras, que a sede pelo poder absoluto é a doença natural da monarquia. /Segundo. Que os comuns, sendo apontados por tal propósito ou são mais sábios, ou mais merecedores de confiança que a coroa. (PAINE, 1792 p.06).[3]


Ao abordar as questões voltadas a forma de governo presente na Inglaterra e o poder exercido por ela na colônia americana, Thomas Paine passa a analisar os fundamentos da monarquia e as divisões de poder estabelecidas na constituição inglesa, buscando apresentar as inconsistências e “absurdos” presentes nela. Afirma-se que a casa dos Lordes (House of Peers ou House of Lords) seria responsável por cuidar dos interesses do soberano, enquanto a câmara dos Comuns (House of Commons) tomaria os assuntos do povo. Entretanto, ao ver do autor, a própria divisão pressupõe um conflito de vontades, isto é, a coroa e os súditos seriam dois corpos separados com diferentes propensões que poderiam colidir em determinados momentos. Ao seu ver, em um governo que não possui igualdade, não é possível manter a paz e, portanto, “Milhares já estão arruinados pela barbaridade britânica!”[4] (Idem, p.25).

Voltando-se, então, ao caso das colônias o autor ressalta a agravação do assunto, pois ali o rei não possuí interesse nenhum, sendo que a “América é apenas um objeto secundário no sistema da política britânica. A Inglaterra consulta os bens desse país nada além do que para a satisfação dos seus próprios propósitos.” (Idem, p.24)[5]. Para ele a independência não seria nada mais, nada menos, do que o direito de fazer suas próprias leis, tendo em vista que as colônias, não sendo a morada do rei, teriam sempre um “governo de segunda mão”. Dessa forma, seu argumento mais poderoso para a causa é que somente a independência, ou seja, um governo próprio do continente, seria capaz de manter a paz e a ordem. Na continuação do documento Thomas Paine apresenta de forma palpável os motivos pelos quais os (futuros) estadunidenses deveriam entrar na guerra, desde os testemunhos que ouviu sobre a inevitável separação, à falta de débitos por empréstimos e a quantidade/valores de armas que seriam necessárias para o conflito. Sua argumentação se voltará constantemente para as vantagens que a separação poderia trazer para a América, concluindo que


Tais procedimentos podem parecer de primeiro estranhos e difíceis; mas, como quaisquer outros degraus que nós já passamos sobre, irão, com um pouco de tempo, se tornarem familiares e agradáveis; e, até a declaração da independência, o continente continuará se sentindo como um homem que continua colocando alguns negócios desagradáveis no dia a dia, [...] e é continuamente assombrado com os pensamentos da sua necessidade. (Idem, p.38).[6]


Aplicações do Documento


Através da leitura de alguns dentre os vários trabalhos relacionados a Thomas Paine e ao Common Sense (1776), observa-se que, tal como destaca Robert A. Ferguson no artigo The Commonalities of Common Sense, há grande concordância entre os críticos em atribuir ao panfleto a virtude de consistir em um trabalho brilhante, que auxilia na visualização do que os americanos pensavam sobre si mesmos e sobre seu próprio país, ao mesmo tempo em que inspirou a pensar “sobre as ‘artes da persuasão’ na vida americana”(FERGUSON, 2000, p.465)[7] — sendo a importância de Paine notada até mesmo por personagens como John Adams, que o coloca como uma das maiores influências de sua época (CLAEYS, 1989). Ferguson também evidencia outros grandes nomes da história norte-americana que opinaram sobre o Common Sense, entre eles George Washington, o qual assinalou sobre as mudanças causadas na mentalidade dos homens, e Benjamin Rush, que ressaltou serem poucas as vezes em que um texto como aquele ganhava tanto destaque. Ferguson pontua que, frente a tais argumentos, os estudiosos creditam a Paine grandes transformações na esfera do debate político.

Gregory Claeys destaca em seu livro Thomas Paine: social and political thought as opiniões de alguns estudiosos – não-contemporâneos ao conflito – acerca de Thomas Paine e do Common Sense. Pode-se citar, entre elas, a da historiadora Joyce Appleby, que posicionou Paine entre os principais “apóstolos anti-republicanos do liberalismo econômico” (CLAEYS, 1989, p.47)[8]; ou, o professor Isaac Kramnic, que vê tal obra como o trabalho de um “inglês burguês radical”. Já Bernard Bailyn, interpreta este escrito como um panfleto inglês com temática americana e, por fim, Jack Greene, que defende que a perspectiva de Paine se fundamentou nas alterações em curso da América revolucionária.

Finalmente, podemos afirmar que todos os autores aqui citados concordam com o fato de que o Common Sense consiste em um dos textos de maior contribuição para os ideais políticos norte-americanos que estavam em formação e que Paine, de acordo com o que ressalta Caelys, teria acreditado na possibilidade de uma independência que acarretasse uma nova forma governo. Esse governo, por sua vez, consistiria em um “mal necessário” que levaria à perda da “liberdade natural” dos indivíduos, mas, ao mesmo tempo, garantiria a ampliação das liberdades, da ordem e da segurança.

[1] Todas as traduções foram feitas de forma livre pela equipe do Relicário da História responsável pela produção do texto. Conjuntamente, ressaltamos que a versão do documento aqui utilizada – uma segunda edição, impressa em Londres, a qual possuí uma extensão efetuada pelo próprio Thomas Paine – está disponível de forma gratuita no arquivo do Google Books, possibilitando que qualquer um tenha acesso. [2] “I have heard it asserted by some, that, as America hath flourished under her former connection with Great Britain, the same connection is necessary towards her future happiness, and will always have the same effect. […]; for I answer roundly, that America would have flourished as much, and probably much more, had no European power had any thing to do with her.”. [3] “To say that the commons are a check upon the king, presupposes two things: /First. That the king is not to be trusted without being looked after, or, in other words, that the thirst for absolute power is the natural disease of monarchy. /Secondly. That the commons, being appointed for that purpose, are either wiser, or more worthy of confidence than the crown.” [4] “Thousands are already ruined by British barbarity!”. [5] “England consults the good of this country no farther than its answers her own purpose.”. [6] “These proceedings may at first appear strange and difficult; but, like all other steps witch we have already passed over, will, in a little time, become familiar and agreeable; and, until the independence is declared, the continent will feel itself like a man who continues putting off some unpleasant business from day to day, […] and its continually haunted with the thoughts of its necessity.”. [7] “about ‘the arts of persuasion’ in American life”. [8] “anti-republican apostles of economic liberalism”.





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Pois, fossem os impulsos conscientemente claros, uniformes, e irresistivelmente obedientes, os homens não necessitariam de outro ditador de leis; mas não sendo este o caso, acha-se necessário ceder parte da sua propriedade para fornecer meios de se proteger do resto, e isto ele é induzido a fazer, pela mesma prudência que em todos os outros casos aconselha-o a de dois maus escolher o menor.



* Todas as imagens foram retiradas da edição da fonte, Common Sense, referenciada.



Fonte

PAINE, Thomas. Common Sense; Addressed to the Inhabitants of America, on the following interenting subjects (1776). London: Printed for T. Parsons, 2° edição, 1792.


Bibliografia

BAILYN, Beranrd. As Origens Ideológicas da Revolução Americana. Bauru: Edusc, 2003.


CLAEYS, Gregory. Thomas Paine: social and political thought. Abingdon: Routledge, 1989.


COGLIANO, Francis. Revolutionary América, 1763-1815: A Political History. New York: Routledge, 3ª edição, 2016.


FERGUSON, Robert A. The Commonalities of Common Sense. In: The William and Mary Quarterly. EUA, julho de 2000, vol.57, no.3.


KARNAL, Leandro; PURDY, Sean; FERNANDES, Luiz E.; MORAIS, Marcus V. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Editora Contexto, 2007.


 
 
 

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