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As Fontes Históricas

  • Writer: Relicário da História
    Relicário da História
  • Apr 21, 2021
  • 6 min read

A constituição dos estudos históricos enquanto disciplina conformou-se no século XIX, pautando-se, sobretudo, pela perspectiva cientificista. Tratava-se de privilegiar uma História de grandes acontecimentos militares, diplomáticos, políticos e de enaltecer figuras heroicas, transmitindo a História de grandes homens, ao passo que somente a documentação escrita era passível de ser considerada (LE GOFF, 1999). Nesse contexto, o documento exercia a função de “prova histórica”, apresentando-se como uma verdade em si mesmo, aceitando que na essência da documentação escrita fosse garantida a autenticidade da informação, conforme demonstram os debates em torno da historiografia da escola metódica (KARNAL, 2009).

A partir de meados do século XIX, o intelectual Leopold Von Ranke desenvolveu em seus trabalhos, em oposição a elaborações subjetivas e especulativas, uma historiografia objetiva que reverberou por três gerações de intelectuais na Alemanha e, posteriormente, na França – contribuindo como influência à Escola Metódica. Essa, por sua vez, surge no contexto da Terceira República francesa e, além de visar a objetividade da documentação, exaltava o regime republicano, através da construção de manuais escolares, contribuindo como instrumento de “propaganda” de uma galeria de heróis e batalhas edificantes do país. Dessa forma, tratava-se de inscrever na memória francesa um imaginário coletivo desta sociedade na qual o caráter científico sustentava a concepção destas obras (BORDÉ, 1983; MARTIN, 1983). Cabe destacar que o fazer histórico nesse momento implicava no agrupamento de dados, selecionando determinados fatos grandiosos e que apenas dessa maneira o registro histórico era “examinado”.

Com efeito, uma nova corrente historiográfica erigia-se a partir dos anos 1930 na França, criticando a tendência dessa “história tradicional”, manifestando-se por meio da revista Les Annales dos historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre. Dentre os ospectos criticados pelo grupo de historiadores, destacam-se: 1) a utilização apenas de documentos escritos (excluindo ainda testemunhos que não fossem “voluntários”, enquadrando somente testemunhos, decretos e afins); 2) a narração centrada no fato, focalizada em tempos curtos; 3) a canalização dos estudos em fatos políticos, diplomáticos e militares; 4) a não verificação da interpretação da documentação. Esse debate chamou a atenção para a longa duração na História, direcionando-a do âmbito restritamente político para as áreas econômica, da vida social e da mentalidade, resultando na ampliação de temas e recursos metodológicos e, por conseguinte, da própria noção de documento, propondo ainda a comunicação com outras áreas das ciências humanas. Na década de 70, com a consolidação da Nova História, denominação conferida a esta tendência historiográfica francesa, temos, para além da extensão desses horizontes, a busca por evitar favorecer uma única tipologia de fonte histórica, ampliando-se ainda mais as temáticas abordadas e as possibilidades de investigação.

Nesse sentido, caberia ao historiador fazer escolhas, pois este não consegue e nem pretende descrever a totalidade dos fatos que ocorreram em determinado contexto espaço-temporal, o que faz do produto da operação historiográfica uma projeção dos valores humanos e uma resposta às perguntas que estes fazem aos documentos. Assim, a análise de determinado fato histórico, bem como a sua importância, depende dos recortes estabelecidos no campo da historicidade pelos critérios subjetivos do historiador, o qual formula questões de acordo com as convenções e concepções de sua época (VEYNE, 1998).

Em meio às lacunas e às verdades sempre parciais produzidas pelos historiadores, são as fontes históricas que asseguram uma base legitimadora a sua pesquisa, ao seu discurso e ao conhecimento histórico no geral. A redefinição dos conceitos de História e de documento durante o século XX, somada a influência cada vez maior dos campos da lingüística e da semiótica nas ciências humanas, articulando-se diversas abordagens de maneira coerente, possibilita que, assim como as próprias produções historiográficas, os vários tipos de documentos passem a ser considerados e analisados como construções narrativas discursivas, uma conquista operacional e metodológica indispensável para a historiografia. Desse modo, as fontes deixam de ser concebidas como um vestígio que traz em si o próprio passado e passam a ser interrogadas pelo seu processo de produção enquanto discursos (JÚNIOR, 2009). Logo, além de sua estrutura superficial, a qual engloba os aspectos mais explícitos da mensagem transmitida, o historiador também deve procurar acessar aspectos mais profundos através da mediação de seu raciocínio, de modo a apreender deles os interesses e os objetivos tanto do autor da fonte - do discurso -, como os do público alvo de sua produção, reconstruindo-os subjetivamente de acordo com suas próprias perspectivas e questionamentos (FUNARI, 2003).

Logo, deve-se identificar um “lugar de produção” (CERTEAU, 1975) relacionado à fonte histórica analisada, contextualizando-a devidamente, pois constitui um produto consciente ou inconsciente de uma determinada época e de uma sociedade específica. Assim, para se determinar esse lugar de produção do documento, o historiador deve partir do estabelecimento da data e do espaço geográfico de sua elaboração, identificando, desse modo, os vários diálogos sociais e culturais que permitiram a sua idealização. Após localizar no tempo a sociedade em que a autoria da fonte está inserida, cabe ao historiador investigar e identificar informações que permitam caracterizar o ambiente social que possibilitou a produção dessa fonte, como a classe social do autor, a qual inclui, dentre outras subcategorias importantes, a sua posição econômica. Outro fator fundamental a ser considerado ao se mapear o lugar de produção do documento diz respeito à consideração de outros textos e obras do período, ou de épocas diferentes, utilizados consciente ou inconscientemente pelo autor na elaboração de seu discurso, uma intertextualidade que pode aparecer de maneira explícita ou não na fonte e que auxilia a compreender de onde esse autor partiu. Ademais, as opiniões que os homens de determinado contexto histórico tinham de si mesmos não podem ser adotadas como válidas de maneira acrítica, mas, sim, tratadas como materiais a serem também analisados pelo historiador, o que demanda procedimentos comparativos entre a fonte estudada e outros documentos, dados, discursos e evidências do mesmo recorte espaço-temporal. (BARROS, 2012)

Atualmente, o conceito de fonte histórica engloba todos os produtos da ação humana ou os seus vestígios que, a partir do trabalho historiográfico, possibilitam acessar e compreender as ressonâncias deixadas pelas sociedades do passado e os seus possíveis desdobramentos no presente (BARROS, 2019). De acordo com a tipologia estabelecida pelo historiador José D’Assunção Barros (2019), uma classificação mais geral dos documentos históricos divide-os em 1) fontes de conteúdo, nas quais, independentemente de seu suporte ou de sua materialidade, a mensagem que transmitem é mais relevante, como é o caso das fontes textuais (cartas pessoais, documentos governamentais, impressos, artigos de jornais, receitas, etc.), das fontes orais (entrevistas e depoimentos), das fontes iconográficas (fotografias, pinturas, charges, mapas, etc) e das fontes sonoras (músicas e gravações); 2) fontes materiais, as quais constituem o próprio suporte ou se apóiam em algum suporte específico para transmitirem os seus conteúdos, expressando simbologias distintas e funções variadas, abrangendo, assim, objetos pessoais, esculturas, cerâmicas, artefatos arqueológicos, paisagens, lugares, inscrições, entre outros; 3) fontes imateriais, as quais não admitem um suporte, mas constituem vestígios do passado enraizados e expressos em hábitos cotidianos, mantendo-se em constante atualização, como os rituais religiosos, celebrações, mitos, práticas tombadas como “patrimônio cultural imaterial”, sistemas gestuais, receitas alimentares, etc. Por fim, destacam-se também as denominadas “fontes virtuais”, que constituem um caso específico ao possibilitarem a ampliação dos processos de conversão e de reconversão do outros tipos de fontes textuais, imagéticas, sonoras, naturais, etc. (BARROS, 2019)

A equipe do Relicário da História ressalta que todos os vestígios e documentações – bem como as referências bibliográficas - a serem trabalhados por nós serão resultado de escolhas críticas e fundamentadas, porém, assim como qualquer corpus documental, não constituirão as únicas fontes ou as fontes consideradas indispensáveis para o recorte temático inicial do projeto, mas frutos de um trabalho seletivo subjetivo e parcial, portanto, historiográfico. Agradecemos pela sua leitura, esperamos que se sintam instigados a conhecer mais desse campo de estudo e, caso tenha alguma sugestão sobre fontes e estudos, colocamo-nos à disposição para esclarecimentos e debates!







Alexander Hamilton Papers: General Correspondence, 1734-1804.












Abraham Lincoln's Top Hat, mid 19th century,National Museum of American History.








REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz. Discursos e Pronunciamentos: a dimensão retórica da historiografia. In: LUCA, Tânia Regina de; PINSKY, Carla Bassannezi. (Org.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009, p. 223-249.


BARROS, José D’Assunção. A fonte histórica e seu lugar de produção. Revista do Centro de Documentação e Pesquisa em História, Uberlândia, Vol. 25, n.2, p. 407-429, jul./dez, 2012.

________. Fontes históricas: introdução aos seus usos historiográficos. São Paulo: Editora Vozes, 2019.


BOURDÉ, Martins; MARTIN, Hervé. As escolas históricas. Portugal: Publicações Europa-América, 1983, p. 112-119


CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1975.


FUNARI, Pedro Paulo A. Antiguidade clássica. A História e a Cultura a partir dos documentos. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.


KARNAL, Leandro; TATSCH, Flavia Galli. Documento e História. In: LUCA, Tânia Regina de; PINSKY, Carla Bassannezi. (Org.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009, p. 9-29


LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora Unicamp, 1999, p. 59-65


SILVA, Rogério Forastieri da.História da Historiografia: capítulos para uma história das histórias da historiografia. Bauru: EDUSC, 2001, p. 313-319.


VEYNE, Paul. Como se escreve a história e Foucault revoluciona a história. Brasília: Editora UnB, 1998.


 
 
 

1 Comment


Rodolfo Nogueira da Cruz
Rodolfo Nogueira da Cruz
Apr 22, 2021

Ótimo texto! Parabéns!

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