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As confissões de Nat Turner

  • Writer: Relicário da História
    Relicário da História
  • May 12, 2021
  • 9 min read

Contextualização

A escravidão norte-americana assume um crescimento acelerado entre os anos de 1780 e o início da Guerra Civil, estimando um salto de 800.000 para quatro milhões de escravizados no país. Destacam-se dois estágios deste processo: A Primeira Escravidão que se direcionava sobretudo à produção de açúcar e tabaco e a Segunda Escravidão, inserida no contexto de expansão vertiginosa do sistema entre 1783 e 1861, marcada pela produção de mercadorias-chave (o algodão emerge como a principal) atendendo aos florescentes mercados industriais. (BAPTIST, 2013). Por sua vez, a contestação ao regime pautando em ideias oriundas desde a declaração de independência dos Estados Unidos da América (1776) e da ilha de São Domingos (1804), alcançou grupos de homens e mulheres escravizados, à título de exemplo de uma petição (1779) assinada por escravos no Condado de Stratford, destinada à Assembleia Geral do estado de Connecticut. Suas contestações esboçavam-se pelo fato de serem escravos em um país livre, sustentando seu direito à liberdade (VIANA, 2014). Tais noções atravessaram o século e, no decurso do XIX erigiram-se eventos que desafiaram o regime escravocrata.

Diversos eventos convergiram como oposição ao regime, a saber: no ano de 1811, escravos armados direcionavam-se à Nova Orleans (Louisiana), o resultado de sua revolta assinalou a morte de dois brancos, em contrapartida, noventa e cinco afro-americanos foram assassinados. Um episódio em Charleston (Carolina do Sul) em 1822 evidenciou o enforcamento de trinta e cinco escravos, na qual Denmark Versey – homem negro livre –, foi acusado de planejar uma revolta, oferecendo como sugestão a fuga de dezenas de escravos para São Domingos – futuro Haiti. Nesse sentido, pairando entre liberdade e escravidão desencadeou-se a rebelião e fuga como mecanismos de resistência, trataremos de abordar a rebelião liderada por Nat Turner (1831) no condado de Southampton (Virgínia).

Em função de sua fé, Nat Turner depositava a organização da insurreição como uma missão dada por Deus, compreendendo que a morte durante a revolta representaria a luta por liberdade e, além do mais, conforme descrevia a Bíblia considerava que o fim dos tempos estava próximo. Sua proposta, por sua vez, visava um ataque surpresa, projetando que a notícia pudesse reverberar a ponto da multidão de escravos da Virgínia se reunisse na revolta. Devido sua crença que Deus concederia vestígios para o devir, quando o aspecto do Sol se apresentou incomum, Turner julgou que era uma evidência para finalmente realizar o motim.

A rebelião iniciou-se antes do amanhecer no domingo de 21 de agosto de 1831, assassinando a família de brancos na fazenda que era escravo, encaminhando-se mais tarde para as demais fazendas no entorno, destinando também recrutar escravos que ali viviam – embora a maioria se recusou a aderir a rebelião. Acredita-se que por cerca de dezoito horas o episódio não foi controlado, totalizando a morte de 55 brancos. O líder da insurreição foi capturado em 30 de outubro de 1831, ao passo que enquanto aguardava o julgamento falou sobre o acontecimento, fato este que levou o advogado Thomas R. Gray publicar As Confissões de Nat Turner uma semana após sua execução em 11 de novembro de 1831.


Análise do documento


O documento analisado corresponde a um panfleto intitulado As Confissões de Nat Turner, redigido por Thomas Ruffin Gray e publicado em Richmond, no início de 1832, um ano após a insurreição em Southampton. Considerado como uma fonte histórica primordial relativa à figura de Nat Turner e de autoria de seu advogado, o panfleto constitui o resultado de pesquisas realizadas enquanto o líder da revolta ainda permanecia escondido e do posterior contato que Gray teve com Nat antes de seu julgamento, na cela, com a permissão do carcereiro (MOURA, 2009).

Na introdução do documento direcionado ao público, escrita por Thomas R. Gray em Jerusalém, condado de Southampton, Virgínia, na data do julgamento de Nat Turner, em 5 de Novembro de 1831, o advogado explicita as suas intenções com a publicação das confissões do líder do que chama de primeiro caso de revolta aberta de escravos na história do país, sendo marcada por circunstâncias de crueldade e de atrocidade que causaram um impacto profundo tanto na população local, como em todo o território nacional. Desse modo, como um de seus principais objetivos com o panfleto, Gray busca satisfazer a curiosidade do público em relação às origens e ao desenvolvimento da conspiração, com destaque para os motivos que influenciaram os seus atores, de modo a neutralizar as frequentes suposições formadas a partir de relatos exagerados e perniciosos sobre o evento.

O advogado também confere um caráter exemplar ao documento, esperando que possibilite compreender, através das confissões de Nat Turner, todo o processo de confusão e corrupção que conduziram a mente deste a conceber na prática atos tão violentos, ações que teriam sido deliberadas e planejadas. O exemplo também estaria no desfecho dos participantes da conspiração, inclusive de seu líder, o que demonstraria a atuação eficiente da política legal do país na contenção desta classe da população, de modo a induzir todos aqueles encarregados de sua execução, bem como os cidadãos em geral, a zelarem para que seja estrita e rigidamente cumprida.

Após realizar seus esclarecimentos e demonstrar sua clara posição enquanto sulista branco ao atribuir várias características bestiais e intenções punitivas aos escravos negros (NIGRO, 2013), Gray passa à transcrição das confissões supostamente voluntárias que Nat Turner havia compartilhado com ele, escritas em primeira pessoa. Ao buscar explicar as suas motivações para a organização e liderança da ação que recebeu o status de conjuração, ao narrar suas confissões, o então prisioneiro retoma circunstâncias que ocorreram durante a sua infância e no decorrer de toda a sua vida até então, as quais, segundo ele, deixaram marcas profundas em sua mente e lançaram as bases da crença em si e do entusiasmo que o levaram a realizar tais atos. Nesse sentido, destaca as aptidões que apresentava já quando criança, como a facilidade com que aprendeu a ler e a escrever, o que, em um meio profundamente marcado pelos princípios da Igreja Batista, o permitiu crescer recebendo a confiança das pessoas de seu convívio – brancas e negras -, sobretudo de seus pais, devido ao seu julgamento e a sua capacidade considerados superiores, o que, para elas, era claramente fruto de inspiração divina e da sabedoria de Deus.

Nat Turner, então, passa a relatar uma série de revelações que ocorreram durante a sua vida, nas quais o próprio Espírito vinha ao seu encontro e se comunicava com ele, o que teria confirmado a sua impressão de que teria sido escolhido e ordenado, pelas mãos do próprio Salvador, para um grande propósito ligado à redenção dos pecados do mundo terreno. Dessa forma, a revolta de 1831 em Southampter pode ser pensada como um exemplo claro da presença de movimentos messiânicos entre escravos nas Américas nesse período, sendo caracterizada por um líder intelectual e religiosamente aparelhado, com amplo conhecimento da palavra bíblica, o qual era considerado como um mensageiro de Deus pela sua comunidade, tendo sido enviado para redimir, pelo sangue dos pecadores, as misérias que o povo cristão estava submetido, destruindo-se as mazelas do velho mundo, para que o próprio Deus pudesse construir um novo (REIS, 1983). O que pode ser apreendido no relato que Nat Turner faz de uma de suas visões:


[...] no dia 12 de maio de 1828, eu ouvi um grande barulho nos céus, e o Espírito instantaneamente apareceu para mim e disse que a Serpente foi solta, que Cristo largou a canga que havia feito para os pecados dos homens e que eu devia assumi-la e lutar contra a Serpente, pois se aproximava rapidamente o tempo em que os primeiros deveriam ser os últimos e os últimos deveriam ser os primeiros (GRAY, 1832, 9-10).[1][2]


Além da racionalização que encontrou na religião para o seu descontentamento com a situação em que se encontrava (APTHEKER, 2006), foi também um sinal divino enviado dos céus – um eclipse solar que teria ocorrido em Fevereiro de 1832, segundo Nat, que o teria incentivado a dar início a preparação de seu trabalho para eliminar os seus inimigos, comunicando o seu plano a quatro companheiros de sua confiança, os quais, assim como ele, não consideravam as suas próprias vidas mais importantes do que as dos outros e tinham um apreço muito grande pela sua liberdade, buscando obtê-la a qualquer custo. Após longas deliberações e reflexões acerca de esquemas e estratégias a serem seguidas pelo grupo, a ação tem início na noite do dia 21 de agosto, na casa da família do senhor de Nat Turner, do qual este não tinha reclamações a respeito de como era tratado, o que não interfere nos planos dos “rebeldes”, os quais seguiram a determinação inicial de que até que conseguissem se armar e se equipar, ou seja, até reunirem força suficiente, nem idade nem sexo seriam critérios para se poupar a vida de algum branco.

Nat Turner e seus companheiros seguiram matando os moradores de todas as residências por que passaram quando, finalmente, decidiram avançar para Jerusalém e continuar com seus feitos por lá. Saindo, então, da última casa invadida, foram surpreendidos por homens brancos que iniciaram um confronto armado, confronto este que resultou em ferimentos em cerca de 5 ou 6 dos homens de Nat e que levou muitos outros ao pânico, obrigando os revoltosos a seguirem por um novo caminho até seu destino, caminho pelo qual acreditavam conseguir despistar os inimigos. Nat relata que esse conflito, somado a outros dois que ocorreram na estrada, culminaram na dispersão dos seus homens, com exceção de dois que foram, em seguida, enviados para buscar novos recrutas e que deveriam se encontrar com o líder em um local combinado. Estes, por sua vez, não voltaram, levando à conclusão de que haviam sido capturados.

Tendo então reabastecido suas provisões, Nat conta ter permanecido escondido em um buraco cavado por ele mesmo, de onde saia apenas durante a noite para conseguir água. Após várias semanas, tendo sido encontrado por dois negros que fugiram ao descobrir sua identidade, viu-se obrigado a deixar seu esconderijo, receoso de uma possível traição. Nat Turner foi pego 15 dias depois por Benjamin Phipps, que o rendeu e entregou à prisão. Enfim, Nat finaliza sua confissão alegando estar preparado para “[...] sofrer o destino que o aguarda.” (GRAY, 1832).

Segue-se ao relato de Nat algumas observações feitas por Gray, que o interrogava. Este destaca a habilidade de Nat em ler e escrever, apesar de não ter recebido educação, e sua inteligência em vários assuntos. Aponta que o depoimento foi feito com calma e compostura e acrescenta informações sobre pessoas que conseguiram fugir dos ataques dos revoltosos. Destaca, ainda, que o prisioneiro se declarou não culpado de suas ações, alegando que não era como se sentia. Gray declara que Nat Turner, no entanto, foi considerado culpado e recebeu a seguinte sentença:


“[...] O tempo entre agora e sua execução, será necessariamente bem curto; e sua única esperança deve estar em outro mundo. O julgamento da corte é, que você seja levado daqui para a prisão de onde você veio, daí para o local de execução, e na próxima sexta-feira, entre as 10 e as 14 horas ser pendurado pelo pescoço até estar morto! morto! morto! e que Deus tenha misericórdia de sua alma.” (GRAY, 1832, p.22).[3]



Notas:

[1] Todas as traduções foram feitas de forma livre pela equipe do Relicário da História responsável pela produção do texto. Conjuntamente, ressaltamos que a versão do documento aqui utilizada está disponível de forma gratuita no arquivo do Library of Congress. [2] “And on the 12th of May, 1828, I heard a loud noise in the heavens, and the Spirit instantly appeared to me and said the Serpent was loosened, and Christ had laid down the yoke he had borne for the sins of men, and that I should take it on and fight against the Serpent, for the time was fast approaching, when the first should be last and the last should be first” (p. 9-10). [3] “The time between this and you execution, will necessarily be very short; and your only hope must be on another world. The judgment of the court is, that you be taken hence to the jail from whence you came, thece to the place of execution, ando n Friday next, between the hours os 10 A.M. and 2 P.M. be hung by the neck until you are dead! dead! dead! and may the Lord have mercy upon your soul.” (p.22)





Listagem presente ao fim do documento "The Confessions of Nat Turner", com o nome dos negros julgados, seus proprietários e suas sentenças










Bíblia pertencente a Nat Turner













"Discovery of Nat Turner"







Fonte:

GRAY, Thomas R. The confessions of Nat Turner, the leader of the late insurrection in Southampton, Va. as fully and voluntarily made to Thomas R. Gray, in the prison where he was confined, and acknowledged by him to be such when read before the court of Southampton: with the certificate, under seal of the court convened at Jerusalem, Nov. 5, 1831, for his trial. Also, an authentic account of the whole insurrection, with lists of the whites who were murdered, and of the negroes brought before the court of Southampton, and there sentenced, &c. 1832.


Bibliografia:

APTHEKER, Herbert. Nat Turner's Slave Rebellion: Including the 1831" Confessions". Courier Corporation, 2006.


BAPTIST, Edward E. A Segunda Escravidão e a Primeira República Americana. Almanack, Guarulhos, n.05, p.5-41, 2013.


BREEN, Patrick. Nat Turner’s Rebellion. Bill of Rights Institute, Disponível em: <https://billofrightsinstitute.org/essays/nat-turners-rebellion>. Acesso em: 10 de maio de 2021.


MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. Nat Turner. Portal Geledés, 2009. Disponível em: https://www.geledes.org.br/nat-turner/. Acesso em: 7 de maio de 2021.


NIGRO, Cláudia Maria Ceneviva. A insurreição contestada: William Styron e As confissões de Nat Turner. Polifonia, v. 20, n. 28, 2013.


REIS, Joao José. Resistência escrava na Bahia:? Poderemos brincar folgar e cantar...? o protesto escravo na América. Afro-Ásia, n. 14, 1983.


VIANA, Larissa. A América negra em tempo de Revolução: raça e república nos Estados Unidos (1776-1860). Revista de História Comparada (UFRJ), v. 8, p. 146-165, 2014.

 
 
 

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