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Abraham Lincoln e o Gettysburg Address

  • Writer: Relicário da História
    Relicário da História
  • Jun 16, 2021
  • 7 min read

Contextualização

Nascido em 1809, na cidade Hardin County no Kentucky, Abraham Lincoln foi um dos presidentes mais importantes dos Estados Unidos por ter assumido o comando do país num dos momentos mais frágeis em que a nação americana se via mergulhada: a Guerra Civil. Advindo de uma família da fronteira Oeste do país, Lincoln teve o primeiro contato com a ciência jurídica por meio de suas próprias leituras privadas feitas em sua casa, que o levariam futuramente a cursar direito e atuar como advogado no circuito de tribunais no Estado de Illinois. Na época em que trabalhou como jurisperito, Lincoln assumia processos jurídicos criminais e civis, que em sua maioria, diziam respeito à especulação imobiliária, à construção de ferrovias, disputas por propriedades, entre outros casos que evidenciavam o quadro político, social e geográfico do país nas décadas que antecederam a Guerra Civil.

Dispondo de experiência no âmbito constitucional, Lincoln adentraria no cenário político pelo partido whig, pelo qual, durante os anos de 1834- 1842 e 1847- 1849, seria eleito representante estadual em Illinois (MORAIS, 2010). Após algum tempo fora da política, o estadista retornaria em 1858 filiando-se ao Partido Republicano e lançando sua candidatura ao senado conseguindo destaque pelo seu discurso “Casa Dividida”, proferido na Convenção Republicana de Illinois (MORAIS, 2010). Nesse pronunciamento, Lincoln já deixaria explicito seu posicionamento político abolicionista em relação a escravidão, questão essa, que no período, já causava certo alvoroço no país. Mesmo tendo perdido a campanha para o Senado, o político obteve prestígio entre seus partidários, o que o levou a ser indicado por seu próprio grupo à corrida presidencial em 1860, sendo eleito e assumindo o cargo de 16° presidente dos Estados Unidos em março de 1861 (MORAIS, 2010).

Nos anos que se seguiriam, o governo Lincoln lidaria com o complexo legado das políticas e dos acontecimentos que antecederam seu mandato, como a expansão para o Oeste, o Compromisso do Missouri e o aumento das diferenças no desenvolvimento do Sul e do Norte (MARTIN, 2006). Tentando a todo custo parar a Guerra Civil, Lincoln faria o uso de políticas diplomáticas que buscariam a defesa da união da nação americana. Para isso, o então presidente priorizava em seu governo a garantia da prática da escravatura nos antigos estados do Sul, mas ao mesmo tempo ressaltava a ilegalidade do ato de separação daqueles que pertenciam a essa região (MORAIS, 2010).

Mesmo adotando medidas apaziguadoras entre os diferentes estados para garantir o equilíbrio político, as providências de Lincoln não tiveram efetividade, pois logo em seguida seria promulgada pelos sulistas a constituição dos Estados do Sul. Para além da afronta jurídica, as investidas militares do Sul também começariam com a invasão do Fort Sumter pelos Confederados, mas um dos conflitos que marcaria o governo Lincoln seria a batalha de Gettysburg. Liderado pelo comandante Robert E. Lee, o Exército Confederado tinha a intenção de deslocar a guerra para os estados do Norte e derrotar as tropas da União em um de seus territórios. Dessa forma, a próxima estratégia feita pelo comandante Robert E. Lee seria então invadir a Pensilvânia, em especial a cidade de Gettysburg que possuía suprimentos extras. Entretanto, mesmo tendo reforços à disposição, as táticas utilizadas pelo exército da União, como a formação em anzol das tropas em campo de batalha, fizeram com que o exército Confederado perdesse a batalha em Gettysburg. Tendo as tropas da União vencido o conflito, Lincoln reconheceu que, mesmo obtendo vantagem na vitória na Pensilvânia, tal embate teria sido um dos mais sangrentos já ocorridos até então em solo americano. Por isso ele inauguraria, em 1863, um novo Cemitério Nacional do Soldado em Gettysburg para honrar a dezena de milhares de soldados mortos nessa batalha.


Análise da Fonte

O discurso intitulado como Gettysburg Address (1863),[1] pronunciado em Gettysburg em honra àqueles soldados que morreram durante a batalha que teve lugar nesse território, foi considerado como um dos mais importantes proferidos pelo presidente Abraham Lincoln (OLSON, 2005), apesar de seu tamanho conciso – contava com apenas 272 palavras. Ainda que o então presidente não fosse considerado um grande orador, sua exposição em Gattysburg ultrapassou o que seria uma simples homenagem e se tornou um importante símbolo para a criação de uma memória nacional, espelhando a forma como os cidadãos americanos viam a si mesmos (DESJARDIN, 2015).


Há oitenta e sete anos, nossos pais trouxeram à luz nesse continente uma nova nação, concebida em liberdade e dedicada ao propósito de que todos os homens são criados iguais.

Agora estamos comprometidos em uma grande guerra civil, testando se essa nação, ou qualquer nação assim concebida e dedicada pode durar.[2]


Esse excerto, que abre o discurso de Lincoln, demonstra o modo como o nascimento dos Estados Unidos encontra-se atrelado à assinatura da Declaração de Independência pelos pais fundadores na nação, em 1776, buscando explicitar aos expectadores que foi a partir desse documento, e não da Constituição, que o país norte-americano ganhou significado (OLSON, 2005). Desta forma, a guerra que se desenrolava deveria mostrar até que ponto os ideais prezados pela Declaração de Independência – liberdade e igualdade – poderiam perdurar, ainda que o desenvolvimento de tais ideais devesse ser aperfeiçoado. Com isso, Lincoln dá voz àqueles que causaram a divisão dos Estados Unidos e atribuiu à sua fala um tom sentimental (DESJARDIN, 2015).

Prosseguindo com sua exposição, Abraham Lincoln destaca o fato de que o local onde se encontravam, cenário de uma importante batalha da guerra, deveria ser utilizado “[...] como local de descanso final para aqueles que aqui deram suas vidas para que a nação pudesse viver”.[3] Dedicando aquele espaço como um cemitério aos mortos em batalha, Lincoln retoma a tradição de rememoração dos mortos, ao mesmo tempo em que desloca os possíveis olhares melancólicos depositados sobre estes, chamando a atenção de seu público a voltarem-se para a causa da “nação”. Evidenciava, então, que mesmo aqueles que caíram em guerra pertenciam ainda à nação norte-americana (SCHANTZ, 2015).

Lincoln destaca que, embora as palavras de seu discurso pudessem ser facilmente esquecidas, a batalha que se passou em Gettysburg deveria sempre permanecer na memória dos vivos, pois foi para estes o sacrifício feito pelos soldados. Ainda, aponta que


É portanto para nós, os vivos, que fica aqui dedicada a grande tarefa que resta diante de nós, desses mortos honrados tenhamos devoção crescente pela causa a que eles aqui, deram sua última medida de devoção – que nós aqui resolvamos que esses mortos não tenham morrido em vão; que a nação terá um novo nascimento de liberdade, e que o governo do povo, pelo povo, para o povo, não perecerá dessa terra.[4]


Deste modo, Lincoln conclui seu discurso, que, naquele momento, não pareceu ter grande impacto, mas que foi adquirindo crescente importância com sua divulgação em outros materiais. Um exemplo que pode ser citado consiste o conto de Mary Shipman Andrews que, trazendo a perspectiva de um sulista admirado com o pronunciamento, contribuiu para que as palavras do então presidente conquistassem alguma admiração tanto no Sul, como no Norte (DESJARDIN, 2015).

Conclui-se, portanto, que Lincoln objetivava, por meio do Gettysburg Address, honrar o sacrifício daqueles que morreram em prol da nação norte-americana na batalha de Gettysburg, trabalhando ainda, no decorrer da exposição, para transformar a causa do Norte na causa da nação. Lincoln enaltece o governo do povo e atribui aos Estados Unidos o papel de provar ao mundo que tal forma de governo poderia continuar existindo – aspecto este já comum na tradição retórica norte-americana (COLE, 2015). Assim, o Gettysburg Address, para além de honrar àqueles mortos em batalha, contribuiu também para reacender na população o ideal de união nacional, ideal este que abarcava até mesmo os que se sacrificaram na Guerra Civil que, por sua vez, vinha trabalhando para o mantimento dessa unidade da América do Norte. Além disso, Lincoln também buscou evidenciar o modo como, aos olhos do restante do mundo, essa guerra civil vinha se mostrando como um teste à democracia vigente no país.


[1] Existem cinco cópias conhecidas do Gattysburg Address, todas elas apresentando pequenas diferenças umas das outras, cada uma nomeada de acordo coma pessoa que primeiro a recebeu. A cópia utilizada pela presente análise consiste na de John G. Nicolay, secretário pessoal de Abraham Lincoln, e é considerada como o primeiro rascunho do discurso. [2] “Four score and seven years ago our fathers brought forth on this continente, a new nation, conceived in Liberty, and dedicated to the proposition that all men are created equal. Now we are engaged in a great civil war, testing whether that nation, o rany nation so conceived and so dedicated, can long endure.” [3] “[...] as a final resting place for those who here gave theis lives that the nation might live.” [4] “It is rather for us, the living, we here be dedicated to the great task remaining before us that, from these honored dead we take increased devotion to that cause for which they here, gave the last full measure of devotion – that we here highly resolve these dead shall not have died in vain; that the nation, shall have a new birth of freedom, and that government of the people, by the people, for the people, shall not perish from the earth.”






Discurso proferido por Lincoln em homenagem aos soldados mortos em Gettysburg - Créditos da Imagem: Library of Congress







Continuação do discurso proferido por Lincoln em homenagem aos soldados mortos em Gettysburg - Créditos da Imagem: Library of Congress







A batalha de Gettysburg - litografia feita pelo Artista Thomas Kelly - Créditos da Imagem: Library of Congress



Impressão representando o Discurso pronunciado por Lincoln ao novo Cemitério Nacional de Gettysburg aos soldados mortos em combate - Crédito da imagem: Library of Congress




Bibliografia:

COLE, Nicholas P. Classical Democracy and the Gettysburg Address. In: CONANT, Sean (ed.). The Gettysburg Address. Perspectives on Lincoln’s Greatest Speech. Nova York: Oxford University Press, 2015, p.3-23.


DESJARDIN, Thomas A. The Search for Meaning in Lincol’s Sreat Oration, In: CONANT, Sean (ed.). The Gettysburg Address. Perspectives on Lincoln’s Greatest Speech. Nova York: Oxford University Press, 2015, p.300-320.


MARTIN, André. Guerra de Secessão. In: MAGNOLI, Demétrio. História das Guerras. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2006.


MORAES, Alex Guedes de. A diplomacia do presidente Abraham Lincoln: a política no período pré-guerra. Revista Historiador, Pelotas, n. 3, p. 29- 40, dezembro, 2010.


OLSON, Steven P. Lincoln's Gettysburg Address. A Primary Source Investigation. Nova York: The Rosen Publishing Group, 2005.


SCHANTZ, Mark S. Death and the Gettysburg Address. In: CONANT, Sean (ed.). The Gettysburg Address. Perspectives on Lincoln’s Greatest Speech. Nova York: Oxford University Press, 2015, p.107-125.


The battle of Gettysburg. CommonLit, 2016. Disponível em < https://www.commonlit.org/en/texts/the-battle-of-gettysburg> Acessado em: 13/06/2021.


The papers of Abraham Lincoln. Upress. Virgínia.Edu, 2021. Disponível em < https://www.upress.virginia.edu/title/3616> Acessado em: 13/06/ 2021.


 
 
 

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